quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

A (des)culpa dos outros

Reparei há uns tempos que nas auto-estradas cá da pátria há muitas placas de saída, umas para estradas nacionais, outras para outras auto-estradas, mas nenhuma me diz se vou sair de uma auto-estrada gratuita para uma paga ou vice-versa. Nesta época de teorias e conspirações, pergunto eu: Não quererá o primeiro-ministro que eu entre numa auto-estrada pensando que ela é gratuita só descobrindo depois que é paga? É bem capaz disso, o malandro! E aqueles casos em que vamos numa auto-estrada, vemos uma placa que nos indica o nosso destino através de outra auto-estrada, mas nós queríamos ir pela nacional e a placa não nos informa que por ali também se sai para a dita nacional. Que vergonha, senhor primeiro-ministro! Onde está a ética na política? Diga-me lá se sabia ou não sabia que as placas estavam viciadas? Provavelmente não sabia. No fundo, o homem nem tem nada a ver com placas. É só incompetência de quem as põe. Afinal o problema do país costuma ser muito mais esse do que a falta de ética. Por isso, deixem lá o primeiro-ministro e ponham-me essas placas como deve ser, ok? Um bom colocador de placas até ganhará outra legitimidade para bater no homem!

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Noite das Bruxas vs Caça às Bruxas

Generalizou-se a crença de que a educação é o meio para que Portugal descole, com maior ou menor velocidade, rumo ao sucesso e à prosperidade. Diz-se que, a médio prazo, a aposta na dita educação trará muitas coisas boas para o país. A médio prazo é capaz disso, mas no imediato trouxe o Halloween… o que é mau! Já não bastava o hábito do funcionário da câmara insinuar o desejo de um cabrito ou dois para fazer avançar um projecto, o do indivíduo dos exames de condução gostar de ver o seu movimento aprovador ser lubrificado por uma injecção de capital, temos agora a promoção nas aulas de inglês da extorsão infantil, uma aprendizagem estruturante para quem vier um dia a ingressar… na máfia. Quem sabe se no futuro não se divulgará nas aulas de português a festa dos Caretos de Podence, essa ode ao machismo mais rasteiro, à sedução desajeitada e à bordoada nas gajas. É também cultural, muito mais nossa e igualmente estúpida. Porque isto de educar nada tem de complicado. É, no fundo e tão simplesmente, moldar comportamentos: o verdadeiro problema está no molde. Com o molde apropriado até podemos educar alguém para vir a ser um mal-educado. Ou podemos moldar tanto um indivíduo que ele próprio já não se distinguirá dos demais. Será apenas um cidadão modelo. Uma peça de uma grande máquina, soldado sem vontade própria, caçando as bruxas que, ao contrário dele próprio, não se encaixam nas engrenagens. Porque, no fundo, noites das bruxas e caças às bruxas são duas faces de uma moeda poliédrica e assustadoramente multipotencial chamada educação que, quando referida em abstracto, é apenas uma palavra vazia, uma ferramenta poderosa que tanto nos poderá libertar como aprisionar.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O canteiro autárquico

De quatro em quatro anos, o Sr. Manuel da mercearia, primeira figura da freguesia, munido de estratégica visão, sai à rua a pedir votos. Deram-lhe um canteiro para gerir e o homem já não quer saber do jardim. Do seu canteiro é que ninguém pode dizer mal, é o melhor de todo o horto. Quem o olha mais de cima não percebe o enquadramento nem vê jardim algum. São só flores amontoadas sem os famosos rei e roque, recursos desperdiçados sem grande linha de acção. Assim são as nossas autarquias que, apesar do trabalho que fazem, têm um problema essencial: um problema de dimensão. Lembremo-nos só que se cada freguesia, tal como as conhecemos hoje, quiser crescer em população, jamais teremos florestas no país, pois de quilómetro em quilómetro encontraremos sempre uma nova urbe. Convenhamos: é freguesia a mais. Se as freguesias são muitas, os concelhos nem se fala. São excessivos no número e, consequentemente, os seus órgãos gestores têm demasiadas competências para territórios tão exíguos. Tudo porque alguém se lembrou de atribuir “Carta de Foral” não para promover a organização mas para premiar o crescimento que, como se viu há dias com a visita daquele senhor turco, pode ser apenas fruto de um tumor. Ora, com tanta gente a querer crescer, não tardará que ande aí tudo às cotoveladas, sem espaço para respirar, mas com o fito do prémiozinho, de ver a terrinha tornar-se cidade ou sede de concelho. E poderão então os galos andar às bicadas, ou mesmo aos tiros, para apurar quem vai afinal mandar na nova capoeira, quem vai tentar sugar mais flores ao resto do jardim para as atafulhar no seu canteiro. Parece, pois, que está na hora de plantar um jardim novo, com menos canteiros e mais bem pensados, a ver se se gasta menos e com resultados bem melhores.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Segurança, soberania e costeletas de vitela

O tema da segurança pública tem agora requintes Damasianos na sua abordagem. Fala-se em sentimento de insegurança. Tenho de reconhecer que esta sofisticação do discurso político encontra aqui um paralelo na neurociência de António Damásio. Senão vejamos: sendo certa a frequência com que percepcionamos os objectos emocionalmente competentes de alívio da carteira, dos óculos de sol ou até mesmo do automóvel, pode-se dizer que se reúnem condições viscerais (e até mesmo figadais) para se despoletar o tal sentimento de insegurança. Excepção feita a Maria José Morgado a quem a rotina dos amigos do alheio já obviou a estes mecanismos neurológicos.

A grande questão do momento, como em todas as outras questões estruturantes do Estado nos últimos tempos, desde o tamanho normalizado dos espargos e endívias até à dimensão das iniciativas empresariais, parece ser decidir sobre qual das grandezas merece a atenção da sociedade: a pequena, a média ou a grande criminalidade. Isto é, desde aquela que vai do roubo por esticão até à falcatrua do “grande capital”.

Uma proposta recentemente ventilada para atacar o problema aponta para a criação de um Super-Ministro com poderes de supervisão sobre a formulação das leis penais. Sem tanta eloquência e com algum abuso da minha parte, eu chamar-lhe-ia Inquisidor, como nos seguros e saudosos tempos da Idade Média. Não estou certo de que uma grande máquina de justiça medieval tenha hoje hipóteses de sucesso. Os preços proibitivos do petróleo, por si só, tornariam insuportáveis os custos com a aplicação das penas. E depois quando a procura de soluções para este problema se transforma numa espécie de casting de super-heróis para a Liga de Ministros Extraordinários, há qualquer coisa que não vai bem.

Uma solução mais mariquinhas poderia começar por impedir que os reclusos fugissem quando vão levar o lixo ao exterior das cadeias. Ou então por criar alas para detidos nos estabelecimentos prisionais onde a insuficiência pedagógica do programa de troca de seringas não convence a população prisional das idiossincrasias do seu estado de detenção. Sei lá, tentar passar uma mensagem de exercício desinibido da autoridade do Estado nestas questões de regulação da liberdade individual. Talvez isso contribuísse até para o reforço da autoridade da própria polícia. Bom, quase toda… não será com um estalar de dedos que substituem por autoridade a ternura humorística que a Guarda Nacional Republicana conquistou no coração de todos. Talvez com a excepção da esquadra de Sacavém onde a eficiência dos interrogatórios conduzidos pelos agentes das botas de meio cano faz com que as pessoas percam a cabeça de arrependimento. E também não seria justo esquecer aqui a PJ de Faro cujas investigações inspiradas no sucesso metodológico dos anos 80 Crime, Disse Ela, ou a capacidade de persuasão dos agentes que rebenta com os sentimentos de culpa em qualquer (in)suspeito, são internacionalmente reconhecidas.

Mas eu quero aproveitar a atenção deste pódio electrónico, com cerca de visita e meia por semana, para alertar para a fonte da verdadeira insegurança neste país: os contratos públicos de fornecimento de bens e serviços às forças armadas. Com esta mania da transparência, não há hoje solípede, gorro, bota de meio cano, revisão dos motores Makila 1A1 do sistema de armas SA330 Puma, rabanete ou bife da vazia que não seja escarrapachado nos ecrãs de qualquer computador com acesso à internet. E nem quero, por pudor patriótico, explorar a ameaça que esta mercantilização coloca à importância estratégica nacional da “alienação de pinhas mansas” regularmente consumada pela Força Aérea no Campo de Tiro de Alcochete. Com os espanhóis aí à espreita, prestes a debelar o reconhecimento internacional das nossas fronteiras com o cavalo de Tróia do século XXI, o TGV, anda tudo entretido com o reles larápio de rua, armado até aos dentes e capaz de enfiar quatro balázios num qualquer comerciante de ouro de Viana do Castelo.

Há maior ameaça à nossa segurança e à nossa soberania do que aquela que pode estar à espreita numa costeleta de vitela estragada adquirida por concurso na Base Naval do Alfeite? Se um gajo como eu, munido da sua ligação à internet e de uma cédula militar justamente carimbada com um “INAPTO” abala assim os pilares da segurança nacional, imaginem agora o que um indivíduo treinado para o caos, nascido da fibra-óptica e forjado no serviço militar obrigatório, não poderá fazer?

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

A alegoria da cidade

À porta das cidades há-de um dia haver porteiro, mais ano menos ano, há-de a coisa ser assim. E a cidade será parque temático, uma espécie de jardim, onde humanos e edifícios serão peças de museu. As ruas serão palcos, canais entrecruzados que levam a lado nenhum, e os habitantes personagens de uma peça de teatro continuamente repetida em ciclos sem fim. E de fora virão outros, espectadores curiosos, turistas culturais, aplaudir essa tragédia tão bem representada, no fundo, igual à deles. À porta do teatro deixarão o seu transporte, que no jardim humanológico anda tudo de mini-trem. E lá dentro encontrarão um quotidiano planeado, corda grossa, hirta e forte que mantém o futuro amarrado.
Um dia as cidades serão prisões e às suas portas nem será preciso um carcereiro. O medo fará o serviço por ele. Nas grades exteriores, cabeças de crianças vislumbrarão um vasto mundo que, por um qualquer código antigo, não poderão conhecer. E desse mundo virão pássaros, que outra coisa não farão que não mijar-lhes nas cabeças, que mesmo os pássaros mais bonitos, ao contrário dos humanos, nunca mostraram respeito por espécies menos dotadas. Sempre aparentaram carecer de uma consciência ecológica. O ar fresco e a erva verde serão somente ameaças de um calor que está por vir ou de uma cor por se esbater, de nada assim servirão a um condenado a esta prisão. E carros e aviões, e arrojo e criação serão mitos do passado, que dentro da cidade reinará o equilíbrio, ainda que conseguido à custa de um mundo aprisionado. Mas o que importa é olhar em frente, que ninguém se mexa muito, para que o mar não aqueça nem atmosfera resfrie, e a extinção só chegue um dia às mãos de fúria natural, esmagando-nos como dinossáurios, já que nos reduzimos a tal.
Um dia seremos tão inócuos quanto as mais benignas hortaliças, em equilíbrio com o meio, sem causar perturbação. Depois de bem treinados esqueceremos até a liberdade, será uma ideia a mais. Adaptando a frase do outro, é o preço a pagar por nunca tanta inteligência humana ter sido usada para nos reduzir a meros vegetais.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Réquiem eleitoral

Três suaves sons de uma firmeza sequencial subalternizam o burburinho da sala: são as pancadas da batuta do maestro na madeira do seu púlpito… silêncio, vai começar a campanha eleitoral.

Cordas, metais, madeiras, percussão, teclas, todos vieram aperaltados e todos nas mãos dos seus melhores intérpretes. Trocam-se olhares de cumplicidade entre executantes para os duetos que se avizinham. Será a altura para brilharem os representantes de cada secção nos solos que lhes cabem.

Ao centro, o grosso da Sinfónica Nacional, o núcleo do ensemble: a secção de cordas, residência da alma dramática da classe instrumental, os violinos. O ouvido inexperiente não os distingue mas eles dividem-se em dois grupos que se distribuem em palco pelas partes central esquerda e direita da uma semi-circunferência. É aqui que se define o andamento da composição. Na meia esquerda está hoje o objecto de cobiça pelo qual todos se esgadanham: o principal e, por inerência da secção à qual pertence, o chefe da orquestra. Todos o olham com respeito. Dizem que, com este, o maestro é mais conduzido do que conduz. O público não se apercebe mas neste espaço geográfico sinfónico o alinhamento dos intérpretes é irrepreensível. Há muito que o actual chefe se desfez dos elementos com tendência ao improviso. Na verdade foi simples, bastou tê-los convidado a produzir harmonia melódica consequente. Agora, todos seguem a sua partitura sem hesitação.

Na meia-direita reina a confusão fratricida porque todos se batem por protagonismo, aspiram a posição de chefe e não suportam o virtuoso que agora o ocupa. Querem ser eles a marcar o andamento em solos audíveis que o programa musical estabelecido pelo público lhes reserva para um ciclo posterior. Farão tudo para lá chegar mais cedo ainda que, qual alegoria da histórica marítima atlântica, tenham de ir ao fundo com o navio. Se não os põem na linha, o resultado mais parece uma serenata nocturna protagonizada por gatos desvairados em pleno período do êxtase lúbrico.

Nas orlas do extremo sinfónico tomam lugar os adereços do conjunto. Resignadas à sua peculiar natureza instrumental, estas secções raramente são convocadas a contribuir para a melodia. Na extrema-esquerda, para os sons produzidos concorrem duas gerações de intérpretes que nutrem entre si um discreto ódio visceral. Apesar de ambas se dizerem membros da orquestra a verdade é que há muito que se demitiram da consequência da sua função: produzir música. O seu papel é destoar. Na origem do problema estará a política de recrutamento de executantes que desejariam ver alargada ao conjunto sinfónico e que assenta na premissa de que todo o músico é um bom músico, não merece distinção, tem direitos adquiridos ainda que as actuações não arrecadem receitas suficientes para os pagar. Se os deixarem, acabam com esta orquestra e com a seguinte, e outra, e mais outra, com a mesma natural voracidade do monstro das bolachas que, de todas as suas artes de pedagogia infantil, a de ensinar a fazer bolachas para substituir as que comia nunca se lhe conheceu.

Para o fim, a extrema-direita do ensemble. Estes espertalhões camaleónicos vestem-se como os da secção central, falam como eles, andam como eles, até já se sentaram nos lugares deles pelos breves instantes após os quais foram saneados por não estarem à altura das exigências… só não mimetizam o corte de cabelo. Com um pouco de atenção percebe-se que é só vaidade e fanfarronice e que a única coisa em que são bons é a marcar a gravidade sonora do compasso, o rigor e austeridade que conferem disciplina e exercício rítmico aos executantes e à atenção auditiva do público que assiste.

Mas esta é apenas mais uma periódica sessão de ensaio no final da qual o público será convidado a opinar sobre a qualidade das secções. Muitos nem aparecem e a ausência de estímulo deduzida deste abstencionismo em nada tem contribuído para a elevação da qualidade da música produzida nos últimos 35 anos de existência. Pelo meio destas sessões haverá sempre alguns que, ao estilo do sucessor de Béla Lugosi na versão cinematográfica do inicio dos anos 90 realizada por Francis Ford Coppola, comentarão insidiosamente: “what sweet music they make”. Mas os resistentes destas andanças já conhecem o resultado destas sessões de treino... verdadeiros lamirés de um allegro que depressa se tornará num funesto réquiem nacional que durante 4 anos vai aprofundar a descredibilização dos intérpretes e da forma como gastam o (nosso) dinheiro dos bilhetes para comprar instrumentos. Já dizia o artista, “the show must go on”.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Insensibilidade e mau senso

Em 17/08/2009 a propósito das eleições legislativas, a SIC transmitiu um programa onde se debatia o que é isso de se ser pobre, rico, ou da classe média em Portugal. De entre os opinantes, um fiscalista do tipo proeminente, chamado Diogo Leite Campos (que me perdoe o senhor se omiti um “de”), dissertava sobre a questão. Dizia ele que um agregado familiar de 4 pessoas com um rendimento global de 2000 € mensais não podia ser considerado de classe média. Porquê? Porque não consegue fazer poupanças. Tendo em conta que, durante o mesmo programa, se veio a informar que mais de 50% dos agregados familiares portugueses vivem com menos de 900 € mensais, pus-me a pensar de onde é que o fiscalista teria retirado a sua teoria. E lembrei-me da ideia que ele passou: por comparação com os países mais desenvolvidos! No fundo, a referida ideia é muito simples: por muito poucos doces que haja no frigorífico, se na casa ao lado a abundância for maior, o menino guloso ficará sempre com eles todos porque, apesar de saber que os irmãos ficarão a ver navios, ele não tem muitos, os outros é que têm poucos, tal como esses invejosos que ganham 450 € e se recusam a ver a desgraça dos que ganham 5000 €. Ora, quanto à distribuição da riqueza estamos falados, é um assunto bonito do ponto de vista teórico, mas quando chega a hora de a fazer não interessa o tamanho do bolo, os matulões da festa não admitem que lhes encolham a fatia.
Talvez seja desta minha maneira de ser populista, da demagogia que brota dos meus poros, mas, depois de tudo isto, parece-me, às vezes, que estes opinion makers não são lá muito isentos. Algo me diz que se no lugar de Diogo Leite Campos estivesse um tipo remunerado com o salário mínimo o discurso seria exactamente o oposto. Mas o fiscalista também deu uma resposta a isso, algo do género: estas coisas são todas relativas. E são mesmo, as malandrecas! Por isso é que, num país onde o salário mínimo é de 450 € e a sua aplicação é alargada, um indivíduo que ganhe 5000 € mensais é relativamente rico, um que ganhe 1000 € anda numa classe relativamente média e os comentários do fiscalista são relativamente insultuosos, porque insultam uma parte relativamente grande da população, aquela que tem um salário relativamente pequeno. Felizmente, todo este mundo movediço de tão grande relativismo degenerou em algo de mais sólido e mensurável quando Diogo Leite Campos lembrou que mesmo as grandes fortunas teriam tendência a fugir do país se alguém as tributasse, ou seja, agora traduzo eu, que feitas as contas não se pode tributar ninguém: adeus, função retributiva dos impostos! Então, num ápice, o comentário que até aí se mostrava relativamente insultuoso transformou-se numa intervenção absolutamente inútil!

quinta-feira, 23 de julho de 2009

O Erro de Deus

Perguntava um dia Abraão ao Senhor, temeroso como convinha, se a destruição prosseguiria caso houvesse dez justos na cidade. Falava-se de Sodoma que, pouco tempo depois, cairia em parceria com Gomorra. Deus disse que não mas, pelos vistos, segundo o seu critério, tal número lá não existia e as cidades arderam. Suspeito de que alguma cena como esta inspirará aquelas criaturas que, volta e meia, aparecem no espaço público a lembrar que, tal como em todas as áreas da vida, também na apreciação do elenco político não se deve confundir a árvore com a floresta. Ora, eu não poderia estar mais de acordo. Não se deve confundir um ou outro político dedicado com a generalidade de abusadores que constitui a classe. Não nos deixemos iludir, a generalidade é mesmo para arrasar! Por muito menos terá Deus arrasado Sodoma que, a passar-se ali o que ficou célebre, mal nenhum trouxe ao mundo. Dissoluta é a vida em S. Bento, lá onde a democracia se dissolve entre insultos e a cegueira branca de Saramago só não causa mais estragos porque o espaço aberto pela ausência de pensamento não podia estar mais vazio e despido de obstáculos. Na arena em que a Assembleia da República se transformou houve quem ficasse espantado com a aparição de um touro ministerial. Mas, vendo bem as coisas, parece que aquele lugar desde sempre lhe esteve reservado. Era uma questão de tempo até que alguém abrisse a porta dos curros. Com uma conversa lateral, qual aluno do 5ºC, Bernardino Soares fez o papel na perfeição! Na tourada parlamentar, porém, não têm brilhado só os cornos do ex-ministro Pinho. Brilham também os ferros teatrais e fanfarrões do cavaleiro Rangel, as pegas sem chama de Alberto Martins, a lide previsível do PCP e, visto que se me esgotaram as metáforas tauromáquicas, as bocas moralistas de Portas e Louça, de confissões antagónicas mas igualmente irritantes. Aliás, ali já tudo irrita: desde o estilo sonolento de Manuel Alegre ao sorriso provocador de Augusto Santos Silva. Para usar uma expressão cara aos amantes de Nova Iorque, neste melting pot cultural, onde até ameaças de porrada já se ouviram, estava-se mesmo a ver que era só esperar até que alguém abreviasse o léxico parlamentar e saltasse do “Vossa Excelência, durante a campanha eleitoral, apegou-se em demasia ao comportamento do gado bovino” para a simples demonstração gestual de um par de cornos.
Por estas e por outras, os rufias de S. Bento, sem Abraão que os defenda, têm de tomar a palavra para ganir: “Olhem bem que, cá pelo meio, ainda é possível que se aproveitem dez.” Não sigamos, porém, o raciocínio errado de Deus. Não deixemos impune o pecador para que não pague o justo. Separemos rapidamente este último e deixemos que a nossa ira divina caia sobre o primeiro enquanto ainda há democracia para salvar.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Ena!!! Tantas virgens ofendidas...

O Manuelzinho fez um par de cornos... e foi demitido.

Foi o dia inteiro a ouvir virgens ofendidas a acrescentar o tridente e a cauda ao Manuelzinho.
É o mafarrico da semana: "Desrespeito pela democracia!", "Falta de respeito pela Assembleia.", etc... Até a jarra abriu a boca (engraçado como tem estado muito faladora com o aproximar do dia 27/09/2009...)

Curiosamente, na mesma casa da democracia, houve um que mandou um colega pró caralho e prometeu-lhe porrada, outro que chamou "Palhaço" ao PM e na Madeira... bem... na Madeira só visto.

O que fazem quando não se estão a insultar ou a fazer caretas é ainda mais grave. Há muito que a Assembleia é tratada pelos que a constituem como um circo, com alguns "artistas" e muitos espectadores (e não me estou a referir às pessoas que estão nas galerias...).

Como as votações são decididas, salvo raras excepções, pela disciplina partidária, tanto vale estarem lá 230 deputados ou 23... macacos amestrados. E eles, os 230, sabem disso. Por isso é que os debates são completamente inúteis para toda a gente menos para a Comunicação Social tabloidesca e acéfala (que é toda!) que não quer perder tempo a encontrar notícias dignas desse nome. Convenhamos que passar uma acesa troca de galhardetes na AR é bem mais fácil do que investigar um bocadinho.

E o Manuelzinho é que foi corrido...

segunda-feira, 29 de junho de 2009

"A oportunidade perdida", versão EUA

Depois da oportunidade perdida protagonizada pelo sr. engenheiro, que conseguiu a proeza de chatear as corporações mantendo tudo basicamente na mesma, parece que a história se repete, agora do outro lado do lago.


Data das eleições II

- Em que planeta é que, podendo fazer algo por menos tempo e dinheiro, se escolhe fazer por mais?
- Num planeta em que os habitantes são tratados como idiotas por quem os governa.

Sempre fomos tratados como idiotas. Esta é só mais uma ocasião em que o fizeram, talvez de forma mais descarada. E o que vamos fazer? Dar-lhes razão votando (e não votando) como sempre.

Temos exactamente aquilo que merecemos.

Pôr o garfo na ferida... e torcer! - "Entrevista a Medina Carreira na SICN" (ou 30 minutos de lucidez)

domingo, 28 de junho de 2009

Data das eleições



Assim de repente, o que se me oferece dizer é:
VÃO GOZAR COM A VOSSA MÃEZINHA!!!

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Gripe “A”… de alérgica

Se uma das funções implícitas das autoridades públicas é manter a serenidade da população nas situações de grande tensão porque, como é sabido, o pânico também mata; uma das teorias para justificar o aumento de doenças alérgicas nos países desenvolvidos é a de que o sistema imunitário se entretém a atacar agentes inócuos, visto que os perniciosos escasseiam. Ora, uma simples analogia permite chegar a um diagnóstico fiável: as autoridades públicas são alérgicas à gripe “A”! As evidências estão à vista: todos os dias aparece uma alta personalidade ligada à saúde pública a alertar a população, até aí posta em sossego, de que não há razão para pânico, como um bombeiro que, depois de acender uma fogueira na qual ninguém reparou, se dedica agora a gritar que está tudo controlado, controlo esse claro aos olhos de qualquer um, quanto mais não seja pelo facto da fogueira ser alimentada por lenha húmida e ser já pouco mais que braseiro e fumo. O fumo da gripe “A” tem-se revelado pouco tóxico, mas o sistema imunitário mundial tem lidado com ele como se de gás mostarda se tratasse, confundindo ácaros com microrganismos patogénicos, numa espectacular reacção alérgica. O problema das alergias é que, sem ameaça que o justifique, limitam a vida de quem delas padece, de tal modo que os sistemas que existem para nos defender se tornam nos nossos mais dedicados carcereiros. A higienização da sociedade trouxe a multiplicação destas reacções, da gripe à colher de pau vai por aí uma guerra sem quartel. As instituições que constituem o nosso sistema imunitário colectivo habituaram-se a reagir violentamente, e sem pesar custos nem benefícios, contra qualquer antigénio, altamente mortal ou relativamente pacato, e a torrente de histamina posta em circulação limita-se assim a inflamar a delicada mucosa que se chama liberdade.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Especial vida pública: o parto da dívida

Quem está habituado a seguir os programas de vida selvagem que adquiriam espaço de emissão pré-almoço em algumas televisões de canal aberto, com um estatuto tão incontornável quanto o dos rituais eclesiásticos supressores de tempo de visionamento de desenhos animados de domingo de manhã, quem está habituado a isso, dizia eu, sabe que o tema do parto na vida animal é sempre tratado com especial cerimónia e vai provocando espanto entre os telespectadores, seja pela abundância de fluidos corporais, que por toda a alegria do milagre da vida sempre me suscitaram sensações pouco dignas dessa expressão, seja pelo facto de nunca termos imaginado como possível que a característica geometria de alguns daqueles animaizinhos fosse compatível com a prática do amor no seu sentido mais carnal, muito menos dar à luz daquela forma…

Quer dizer, já toda a gente assistiu ao parto mais filmado da natureza: o nascimento da uma gazela numa qualquer planície da reserva natural do Masai Mara… Narração com voz profunda e hipnotizante, a mamã gazela a tentar espantar as moscas com espasmos dos músculos das orelhas ao mesmo tempo que perscruta no horizonte a ameaça dos terríveis predadores do episódio da semana anterior, desta feita relegados para papel de vilões deste episódio especial; eis que de súbito uma massa de carne envolvida em película semitransparente coberta de sangue e muco atinge a vegetação rasteira do Masai Mara e que, depois de uma boas lambidelas da progenitora, toma a forma de uma gazela em tamanho pequeno… entra então em cena o entusiasmo da equipa responsável pelo episódio que baptiza e adopta a cria de imediato, reclamando a habilidade para a distinguir das outras 200 gazelas da manada.

Também já se pode dizer que algumas das mais misteriosas concepções da natureza nos entraram sala a dentro enquanto esperávamos o assado de domingo: o nascimento das tartarugas na areia da praia ou até mesmo o nascimento do mítico tubarão branco, neste caso na ausência da mesma voracidade paternal que os animaizinhos peludos de quatro patas geralmente suscitam nas respectivas equipas de acompanhamento.

Mas de todos estes nascimentos, tenho de confessar que nenhum é tão misterioso, desconhecido e, apesar do paradoxo, discutido, como o nascimento da famigerada dívida pública, que estou em condições de vos revelar… é entre os densos tufos das páginas do diário da república, na imensa planície da Imprensa Nacional Casa da Moeda, que este verdadeiro milagre tipográfico tem lugar. Foi no inicio deste mês, enquanto me passeava pelas notificações da série I daquele santuário legal, que tive a sorte de testemunhar este verdadeiro acto de criação. Ainda dizem que é nos desertos e selvas da África e da Ásia que se escondem os prodígios da natureza. Certamente não conhecem o poder das resoluções do conselho de ministros, capaz, numa só postura, de lançar no mundo 20 mil milhões de euros de títulos do tesouro que, se sobreviveram à austeridade dos implacáveis mercados financeiros, trarão mais vida a todo o ecossistema nacional… Estou aqui a brincar com coisas sérias é o que é… como é que é possível brincar com a, segundo reza a resolução do conselho de ministros n.º 46/2009 de 02 de Junho, “emissão de dívida pública fundada sob a forma de bilhetes do Tesouro até ao montante máximo de 20 mil milhões de euros”? Se quisesse brincar com isso teria de dizer algo como “emissão de dívida pública fundada sob a forma de bilhetes do Tesouro até ao montante máximo de 20 mil milhões de euros”. Não posso deixar de me perguntar se os agiotas que vão comprar estes “bilhetes” também são assim tão eloquentes na cláusula do contrato de empréstimo em que estabelecem a penalização prevista para a omissão das prestações devidas. Sei lá, tipo “três incumprimentos seguidos, ou seis intercalados, da liquidação da prestação mensal prevista na alínea anterior faz incorrer o primeiro signatário deste mútuo oneroso (as próximas gerações de portugueses) na aplicação de força mecânica passível de infligir fracturas expostas da tíbia e perónio de ambos os respectivos membros inferiores”? É que eu não estou nada de acordo com isto. Vocês sabem o risco que isto acarreta de se contrair uma osteomielite?

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Pôr o dedo na ferida...

"Tempo de fazer contas"

Peguemos então na máquina de calcular e deitemos contas à democracia que temos. De mais de 9 milhões e meio de eleitores inscritos, 63% (mais de 6 milhões) entenderam, no passado domingo, que não valia a pena votar. Considerando que outros 4,63%, tendo votado, o fizeram em branco, negando a confiança a qualquer partido, e que houve 2% de votos nulos, os portugueses que confiam ainda nos partidos que temos são já menos de um terço (30%).

O que significa que o PSD - partido mais votado - tem a confiança de apenas 9,5% dos portugueses (31,68% de 30%), e o PS de menos ainda: nem de 8% (26,58% de 30%). E todos os restantes partidos, no seu conjunto, de menos de 9%. É esta a legitimidade democrática (o PSD representando 9,5% dos portugueses, o PS menos de 8% e os restantes partidos menos de 9%) do actual sistema partidário. O que levou a tal divórcio dos portugueses - que, no entanto, nas primeiras eleições após o 25 de Abril acorreram em massa, esperançada e entusiasticamente, às urnas - dos políticos e da política? Teremos que mudar de povo? De políticos? Ou devemos continuar a fazer de conta?

(Texto de Manuel António Pina no JN de 2009-06-09)

terça-feira, 19 de maio de 2009

Comentador de Bancada

Habituei-me a olhar para Marcelo Rebelo de Sousa como o Mantorras do comentário político: toda a gente o aplaude, há quem roce a histeria mas, para o essencial, ele pouco contribui! O joelho da sua vaidade não lhe permite arriscar comentários menos previsíveis que o possam comprometer. E assim, o potencial de brilhantismo esfuma-se num jogo excessivamente lateralizado. É que Marcelo, mais do que um comentador, é um sedutor; e como sedutor, mais do que dizer o que quer dizer, diz aquilo que o objecto da sua sedução quer ouvir – ainda que, por vezes, isso o tenha feito passar parte do seu programa a pedir desculpa pelos lapsos cometidos no programa anterior. A fúria sedutora de Marcelo Rebelo de Sousa, parece evidente, dirige-se a todo e qualquer um de nós, aqueles que ele gosta de chamar de Zé Povinho, uma massa de contornos pouco definidos que ele se esforça ao máximo para não decepcionar. E é por isso que, do banco onde se senta a ver o jogo correr, dificilmente “o Professor” sairá para professar outra coisa que não seguras banalidades, jogadas calculadas, tacticamente irrepreensíveis, mas que lhe renderão, quando muito, um ou dois golos por época. O mundo da política anda carecido de treinadores de ataque, de quem assuma o jogo, caso contrário a perda público não terá fim, os treinadores da bancada da cidadania abster-se-ão cada vez mais de votar. Marcelo tem tocado várias vezes no assunto, na questão da descredibilização da classe. Mas o seu futebol passivo, assente numa circulação de bola sem progressão, só tem contribuído para agravar o problema geral: a falta de profundidade!

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Acerca da justiça da saúde e, já agora, da saúde da justiça

Admiro com afinco a elite social que vive convencida de que, se não se desse ao penoso trabalho de moderar os misteriosos ímpetos da população, a dita população ocuparia os seus tempos livres a passear entre tribunais e hospitais. Só assim consigo compreender os conceitos de custa judicial, no primeiro caso, e de taxa moderadora no segundo. Creio firmemente que, por caminhos travessos, o indivíduo que foi à urgência hospitalar, ou a qualquer outro serviço de saúde, com a consciência de que não tinha essa necessidade foi, justamente, ao sítio certo. Alguém que vai espairecer a cabeça para um lugar onde o estropiamento abunda e a morte se cruza consigo em cada esquina precisa de ser urgentemente internado… não taxado! Eu, pelo menos, fujo de lá a sete pés.
Do mesmo modo, um indivíduo que chega ao tribunal em litígio com… ninguém… deu um passo na direcção certa: a da cadeia. “Então, de que se queixa?” “De nada, só vim cá para chatear!” “Ah! Muito obrigado por ter aparecido. O Sr. agente irá conduzi-lo aos seus aposentos!” Caso encerrado, sem taxas, sem emolumentos, com eficácia! Ao invés, a ideia que suporta o mecanismo moderador actual talvez pudesse ser representada da seguinte forma: “Então, de que se queixa?” “Queixo-me do meu vizinho, o malandro, está sempre a sacudir os tapetes para dentro do meu terreno… bandalho!” “ E você vem incomodar o tribunal com isso, homem?!” “E que mais podia eu fazer?!” “Sei lá! Olhe, dava-lhe um tiro, ao menos um assassinato justificava um processo!”
No fundo, esta questão da moderação através de taxas faz lembrar as infracções à lei que são punidas com multa… só que se pagam antes da infracção ser cometida e mesmo que isso não venha acontecer já ninguém devolve a massa. E percebe-se porquê: é que, cá entre nós, teriam de estar sempre a devolvê-la! As custas judiciais, por seu lado, remetem-me para um cenário ainda mais sombrio: o chinês! Por lá é que se costuma executar o condenado e mandar a conta da bala para a família!
Em jeito de despedida, atrevo-me a propor à elite nacional, que já se viu que não gosta de deixar a população à rédea solta, que pondere ao menos a possibilidade de devolver a taxa moderadora cobrada bem como de isentar a segunda prestação de serviço quando esta vem na sequência de um diagnóstico errado ou de um tratamento mal escolhido. Se, em consciência, não se aperceberem da justiça que habita esta proposta tão moderada, recomendo uma passagem pela urgência para posterior internamento! Se, por outro lado, preferirem fazer de conta que não vêem essa justiça, então mais vale passarem pelo tribunal seguindo depois para a cadeia… sempre sem pagar taxas, que prender quem faz de nós parvos é um serviço público!

Sem mais de momento,
Com os melhores cumprimentos… e um abraço deste que tanto vos quer.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Um Olhar Sobre a Crise… e o Festival RTP da Canção.

Neste tempo que se denomina de crise, parece que o que mais sobe é o desemprego. A receita para a resolução do problema de um desempregado é conhecida: tem de ser mais proactivo, mais assertivo, mais flexível, ou mesmo mais competitivo. Mas para quem não foi abençoado com semelhante pacote de virtudes, creio que descobri uma solução: Um lugar como apresentador da RTP! Quem teve a oportunidade de ver, ainda que, tal como eu, só por breves momentos, o “Festival RTP da Canção” deste ano, certamente não discordará de mim quando digo que o factor essencial para se co-apresentar um programa desta natureza é… comportar-se como um perfeito idiota! Se, por outro lado, alguém se sentir mais aliciado pelo cargo de porta-voz de um qualquer júri regional, poderá alternar este dom com o da completa falta de “timing” televisivo. De um modo geral, manifestar incompetência parece resultar muito bem! Eu, que já estive desempregado e poderei muito bem voltar a estar, respirei de alívio com aquele espectáculo. É que aquela coisa da flexibilidade nunca me agradou. Mas agora sei que, algures no mundo, há empregos feitos quase à minha medida… É só fazer um pequeno esforço para parecer ainda mais parvo do que já sou!