quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Passeios de bicicletas

Sempre olhei para a evolução do mundo como um curva com altos e baixos mas tendencialmente crescente. Hoje, não tenho grandes dúvidas, estamos numa fase má. Serve o prelúdio para dizer que ninguém pensa já no que faz. Se a gestão da sociedade fosse um jogo de xadrez, os gestores ouviriam xeque-mate ao fim de meia dúzia de jogadas. Lembrei-me disto porque, nos últimos tempos, estive para ser atropelado por, mais ou menos, uma dezena de vezes. Onde? Em cima do passeio, claro está! Como assim?! Por bicicletas! Não sei quem teve a ideia genial de deixar circular bicicletas em cima dos passeios. Já reparei que, actualmente, a preocupação é com veículos que lançam gases para a atmosfera, por isso a bicicleta emerge rodeada de benignidade. Mas que ninguém se iluda, quem vier a levar com uma em cima rapidamente verá como as preocupações com o efeito de estufa passarão para segundo plano. Talvez tenham mudado precipitadamente o código da estrada e eu não tenha dado por isso, mas a verdade é que não me canso de ver ciclistas a atravessar em passadeiras em cima dos seus velocípedes com um ar todo prioritário, a circular em zonas reservadas a peões a velocidades de “Tour de France” e quem quiser que se desvie, aquilo é um veículo ecológico, portanto, não fará, certamente, mal a ninguém. Creio que se quem organiza as cidades circulasse a pé dentro delas tudo seria diferente. Mas a verdade é muito simples, muitas das pessoas que transformaram os centros urbanos em espaços pedestres reservaram para os seus automóveis o direito excepcional de lá entrar, por isso, se levarem com uma bicicleta pela frente resolverão tudo com uma simples pintura nova.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Portugal em estado de guerra!

Portugal está em guerra. Não se iludam, Portugal está em guerra e a comprová-lo estão as enormes colunas de espesso miasma negro acinzentado que se elevam na troposfera, sobre solo português. Por imagens assustadoramente semelhantes a estas vi já uma nação jurar perseguição sem tréguas, numa guerra sem quartel, aos terríveis perpetradores.

Portugal está em guerra. E como em qualquer nação em estado de guerra, os seus representantes públicos adoptam o comportamento adequado: tamborilam os dedos no tampo de uma mesa e assobiam para o ar enquanto acompanham a contagem decrescente para o final do Verão e da época de incêndios. É verdade, tão habitual se tornou este voraz consumidor de florestas, casas e carros de bombeiros que convivemos com ele anualmente numa época especificamente consignada para o efeito, tal e qual como a época balnear.

Portugal está em guerra. E o que se faz num estado de guerra como o que vivemos? A resposta é óbvia: compramos submarinos e “Pandurs” (veículos blindados de transporte de tropas – fui considerado “inapto”, não ignorante), alugamos helicópteros de combate a incêndios, praticamos o chamamento do pássaro “canadair” espanhol, assentamos a tarefa de apagar os incêndios na boa vontade de voluntários, fornecemos aos mesmos voluntários chibatas para açoitar as labaredas em desvairadas tentativas de dominação e submissão, e “notificamos” burocrática e simpaticamente os proprietários negligentes da necessidade de limparem as suas matas de forma a diminuir o perigo para as suas habitações e para as dos seus vizinhos.

Portugal está em guerra! Isto não é tentativa de eloquência ou estilização hiperbólica. É uma guerra com baixas, e começa pelas mais terríveis, com a perda de vidas dos soldados que estoicamente enfrentam a fornalha diabólica, dos cidadãos que não se desviam a tempo do seu caminho, das casas que não se conseguem mover, dos palermas dos esquilos, raposas, porcos-espinhos e outros com nomes mais distintos, cobardes alados incluídos, que não se organizam para combater o fogo; e das patéticas árvores que se imolam na esperança de um dia nos assombrarem com a merda da conversa: “Buuuuh! Bem vos avisamos! Que riqueza vos resta agora que desaparecemos? Hum?”.

Portugal está em guerra. Mas nem uma palavra nos noticiários sobre propostas compatíveis com a obliteração do inimigo, está tudo demasiado ocupado a ensaiar uma pose de santola acabadinha de sofrer um acidente vascular cerebral, para ver se o momento “kodak” aparece no telejornal da SIC. Porquê? Não vale a pena, é assim todos os anos, tão incontornável como o IRS ou um programa apresentado pelo Malato na RTP1… São os vidros de garrafas, as beatas de cigarros, essa paradoxal simbiose entre madeireiros e fabricantes de mobiliário queimado, as condições climatéricas, o mato seco que entra em combustão espontânea… É muita coisa… Daí que se compreenda que poupar os nossos idosos às horas de maior calor seja mais do que avisado, atendendo a que a ressequida senescência que os caracteriza também a eles os pode colocar em estado de combustão espontânea.

Portugal está em guerra. E entretanto lá se vai assumindo, timidamente, que no cocktail de negligência e piromania se filia a esmagadora maioria dos fogos florestais, na categoria das “causas humanas”. Pirómanos, raio de fetiche este… apanham-se de férias e lá vão eles todos arteiros para o seu passatempo favorito, atear um fogo na mancha florestal mais próxima… Como será que um pirómano se vê a si mesmo nos “gostos e interesses” do “facebook”? “Portugal a arder”?! E citações favoritas? Nero, de harpa na mão, como fabulosamente interpretado em 1951 por Peter Ustinov em “Quo Vadis”: “Wo ho, ó chamas bruxuleantes”?!

Portugal está em guerra! Está em guerra consigo mesmo, está em guerra com uma percepção. A percepção de que esta realidade é irremediável, que não importa encontrar um equivalente penal, ainda que mantendo a mesma matriz napoleónica, para “fechar os pirómanos e deitar fora as chaves”, que não importa reestruturar as forças armadas e profissionalizá-las num referencial de utilidade do domínio busca/salvamento/resposta a catástrofes naturais, que não importa patrulhar florestas com câmaras e homens, que não importa desfazer conflitos de interesses metastizados na contratação externa de meios e serviços privados de combate a incêndios, que não importa tomar posse administrativa de terrenos cuja ignição representa perigo para a vida e posses materiais de terceiros e cuja limpeza de segurança é sistematicamente ignorada pelos seus proprietários…

Portugal está em guerra e a primeira batalha desta guerra é pessoal, trava-se em frente a um espelho. Só depois deixará de se travar nos arbustos anónimos, nos matos protegidos, no quintal de uma das nossas casas, nas costas de alguém que nos é próximo…