Mas nada mais espantoso que a evolução estética da sinalização vertical de trânsito agora empregue na moderna urbe. Placas com indicações escritas fartas, distribuídas por várias linhas de texto que adornam e condicionam, agora, a outrora percepção intuitiva das outrora formas geométricas simples articuladas com cores, alternantes ou não, que caracterizavam a velha sinalização vertical. Horários, tipos de veículos, texto, símbolos pequenos sobre fundo branco, uma verborreia interminável, um verdadeiro prefácio, muitas vezes posfácio, daquele instrumento de prescrição rodoviária. Impossíveis de ler, a não ser no âmbito da calmaria de uma incursão pedonal. Antes um semáforo, um stop, um sentido obrigatório, agora tudo isso mas... dependendo das horas, do veículo conduzido, da cor, do cheiro, da altura do condutor, pode ser tudo bem diferente.
Como se não bastasse ao condutor a repartição de recursos intelectuais e físicos pela manobra mecânica da besta automóvel, com os seus pedais, alavancas, ruídos, botões, computadores de bordo, computadores fora de bordo, a manipulação do cigarro, a manipulação do telemóvel, a tentativa de impedir a Rute Vanessa de enfiar o “pokémon” pela goela abaixo do pequeno Izequiel Luís, a tentativa de evitar o terço difundido pela Rádio Renascença, a necessidade de exortar o condutor dianteiro, com alusões a um estatuto de bastardo acompanhadas por um manguito bem erecto, para a urgência de arrancar no verde que acaba de cair; como se não bastasse tudo isso, dizia, agora o condutor tem de “ler” os sinais, literalmente.
Pergunto-me se não será este o conceito de “cidade inteligente” que frequentemente se apregoa em justificação da manutenção do caos de coelheira em que se tornaram as nossas metrópoles. Se assim é, de mais estudo precisarei. Mais de 20 anos repartidos entre ensino obrigatório, secundário e superior não são suficientes para gerir tamanha complexidade.
Ou serão estes os primeiros sintomas da mobilidade interna decretada sobre o pessoal da função pública? Transferiram a malta do Plano Nacional de Leitura para a Prevenção Rodoviária? Não tarda nada teremos cesarianas nas aulas de Técnicas Laboratoriais de Biologia e Estudo Acompanhado nas alas de psiquiatria.
O que quer que seja, é o fim dos tempos em que alguém do lugar do passageiro dirá: “passaste um vermelho, querido”. O diálogo enriquece, a segurança empobrece:
− Aquilo era um stop, querida?
− Ah, pá, não sei, só consegui ler o primeiro parágrafo, querido.
[Avenida João XXI (Braga): 4.599.954 N; 548.893 E]
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