sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Bastonários da (des)ordem

Um dos muitos aspectos que me fazem não apreciar Marinho Pinto é o facto dele ser bastonário de uma ordem profissional. Toda a sua cruzada pela defesa dos que não têm voz – na qual me coloco ao seu lado – me parece suspeita quando ele é a figura máxima de uma organização que se farta de excluir pessoas com habilitação própria para exercer uma profissão do exercício dessa mesma profissão, tornando-lhes assim a voz menos audível. Uso este bastonário apenas como exemplo, por ser dos mais conhecidos, porque, na verdade, não aprecio ordens profissionais em geral. Intriga-me como, volta e meia, lá estão todos os bastonários na auto-intitulada “maior sala de debates do país”, o “Prós e Contras”, como pessoas que têm uma opinião fundamental para a sociedade quando uma das suas funções fundamentais é fechar o seu grupo profissional às opiniões do resto da sociedade. E pergunto-me quem são aquelas organizações para decidirem quem entra ou não entra na profissão em causa. Só vejo equivalente em certas milícias populares que resolvem tomar conta do bairro. E porque são ilegais estas segundas e legais as primeiras? Não sei, nem quero saber; só espero que as ilegalizem depressa visto que, seja qual for a razão, nada de bom tem trazido e de mau já trouxe muito. Chegou-se agora ao ponto de profissões de cariz eminentemente científico e vocacionadas para a investigação estarem organizadas em ordens, como se alguém pudesse ter dito a Galileu: “Amigo, essa lei da queda dos graves é muito boa mas, visto que você não tem um curso de Física, remeta-se à sua insignificância”. E parece que, no governo, alguém acordou. Em 18 de Dezembro de 2010, nas Jornadas Parlamentares do PS, o ministro da Ciência e do Ensino Superior disse claramente que estas organizações apenas pretendem canibalizar e controlar o acesso ao mercado de trabalho, que o Parlamento cede aos seus interesses corporativos e que esta situação gera um condicionamento desse mesmo mercado, sob o pretexto da deontologia. E eu acrescento que estas organizações acabam por desfavorecer um abaixamento dos “honorários” que os seus profissionais cobram. Curiosamente, muitas das ordens nem tutelam verdadeiras profissões liberais, se é que essas existem de facto. Ora, sem deontologia eu vivo bem, só preciso que se cumpra a lei. Os meus direitos defendo-os eu e, quando não conseguir, terá de ser o estado a fazê-lo. Portanto, não vejo necessidade de existirem organizações a tentar adivinhar hoje se no futuro vamos ter falta ou excesso de médicos, havendo até quem consiga dizer as duas coisas com intervalos de dez segundos. Se houver gente a mais com um determinado curso, certamente esses conhecimentos terão aplicação noutro lado – um curso e uma profissão são coisas diferentes, convém é que sejam os clientes a decidir quem os serve melhor e não os profissionais a barrar a entrada a novo sangue. Não vou entrar pelo caminho de procurar perceber se é verdade que há representantes das ordens a entrar pelo gabinete do ministro a pedir-lhe para fechar entradas nas universidades. É irrelevante. O que importa é que, se quiserem, eles próprios podem barrar a entrada na profissão, fazendo assim chantagem com o resto da sociedade. Por isso, estou com o ministro quando ele diz que conseguir libertar o país da tutela das ordens profissionais na entrada das profissões é um elemento fundamental, sobretudo em período de crise económica. Que o que se está a passar é uma canibalização do mercado de trabalho em torno das profissões qualificadas, em que os que estão instalados criam uma fronteira para ninguém mais entrar. Louvado seja o senhor… ministro Mariano Gago. Se ele quiser uma manifestação contra as ordens eu estou lá. Se ele as vai mesmo combater, eu pago para ver. Não é um gasto, é um investimento.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Tiros nos pés para fazer esquecer as dores de dentes

É sabido que a consciência de cada um não é razão suficiente para levar um lado a tomar decisões que tenham em conta a outra parte interessada numa determinada questão. Por isso se decidiu, nas questões laborais, proteger a parte mais frágil com uma série de direitos, incluindo a greve. Porém, hoje em dia, para uma boa fatia das profissões que preenchem a paleta ocupacional da chamada classe média, fazer greve exige tão poucos sacrifícios que o único obstáculo é a consciência de cada um que, como já se viu, não é travão fiável. Só por esta razão é que posso compreender a frequência com que se verificam greves na função pública, particularmente entre os profissionais de saúde e de educação que, convenhamos, estão longe de ser os desfavorecidos do país. Este tipo de protesto banalizou-se tanto que duvido até que ainda alguém lhe dê muita atenção. Se não há médico, sofre-se e pronto. Sofre quem sofre, que se tiver dinheiro para pagar uma consulta privada, aí não vai ter dificuldades com grandes paralisações. Assim, tomando como exemplo esta última classe, com o apoio das forças partidárias que mais reivindicam os louros da defesa dos desfavorecidos, qualquer médico, com o seu salário bem superior à média nacional, teve toda a razão em fazer greve na quarta-feira passada (24/11/2010), deixando sem consulta uma data de pessoas nos centros de saúde e hospitais, gente que ganha bem menos do que esse médico, visto que, se assim não fosse, poderia muito bem recorrer à medicina privada onde, vá-se lá saber porquê, as greves não se fazem sentir tanto. Enquanto a classe média, que tem emprego garantido, anda entretida a evitar os pesos que lhe possam carregar a consciência, a ministra da saúde, que tutela uma parte dessa classe, preocupa-se com… as cesarianas. Creio que este será até o seu assunto predilecto. Volta e meia, lá vem ela dizer que há cesarianas a mais neste país, cesarianas essas que até são pedidas pelas parturientes. Mas a senhora sente-se incomodada, quer que haja indicação clínica para tal, que isto aqui não é uma rebaldaria, é um país onde há boas práticas a seguir. Quem manda no parir das outras é o médico de serviço, por influência divina da Sr.ª Ministra, olarila. Está muito bem, enquanto o Serviço Nacional de Saúde se desfaz, a preocupação da sua responsável máxima não é encontrar soluções para essa situação, nem abrir unidades de cuidados paliativos, nem sequer fazer alguma coisa relativamente aos medicamentos mais recentes que o país não tem dinheiro para pagar. A opção é atacar o drama das mulheres que se acham no direito de escolher uma cesariana! Enfim, é um pouco como a greve geral da semana passada: Tiros nos pés para fazer esquecer as dores de dentes!

domingo, 31 de outubro de 2010

A máquina, o homem, o trabalho e o bem-estar – um dos capítulos do meio da história

Em tempo de crise no século XXI, parece-me oportuno falar sobre um tema que remonta à revolução industrial. Quando a máquina começou a substituir o trabalhador humano na produção de riqueza, abateu-se uma sombra sobre o futuro do emprego. Nem toda a gente viu nas novas invenções um caminho para o bem-estar e para uma maior disponibilidade de tempo. Muitos viram simplesmente a sua própria extinção enquanto força de trabalho e a consequente fome vindoura. Assim, a máquina, que podia ser vista como auxiliar do ser humano, acabou por ser também colocada no campo do adversário, como alvo a abater. A conclusão imediata que retiro deste dado histórico é que, se atendêssemos a visões simplistas, estaríamos condenados a uma de duas realidades não muito agradáveis. A primeira consistiria na possibilidade de um crescimento tendencialmente infinito do desemprego. A segunda resumia-se à condenação da humanidade à ausência eterna de auxílio no trabalho e à estagnação tecnológica. Abençoado Cristóvão Colombo que, à custa de um ovo, pôs a nu uma evidência: há muito mais para explorar do que aquilo que a superficialidade mostra. E as questões a explorar neste caso são as seguintes: Quem tem direito aos benefícios da tecnologia e em que proporção? Poderá um só ser humano, ou um grupo restrito, considerar-se dono de uma criação que, em última análise, teve o contributo de inúmeras pessoas ao longo da história? Se a consequência imediata da substituição de trabalho humano por tecnologia for o desemprego de muitos e a concentração de riqueza em alguns, qual será a consequência a médio prazo para estes últimos quando quiserem escoar os seus produtos? Será a evolução tecnológica um bem ou um caminho para a desgraça? Agostinho da Silva disse um dia que os desempregados eram desempregados coisa nenhuma, eram apenas pessoas com tempo livre. O problema, digo agora eu, é que esse tempo livre não pode ser aproveitado sem recursos e com fome. Creio que muitos dos desempregados sacrificariam um pouco desse tempo livre em troca de um parte da riqueza que se produz, ou mesmo da que se poderia produzir. Por isso pergunto como pode haver tanta gente forçada a não fazer nada quando há tanto para fazer e outra tanta forçada a fazer tanto quando há tanta sem fazer nada? Que tem isto a ver com a máquina e a revolução industrial? Deixo ao critério de cada um. Será a evolução tecnológica um bem ou um caminho para a desgraça? Quanto a mim, terá sempre a possibilidade de ser um bem e só será um caminho para a desgraça se assim o permitirmos.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Discriminações cirúrgicas

Não sou grande adepto de discriminações, é uma coisa minha, não gosto. Por isso é que não suporto que se discriminem ciganos. Não gosto de ouvir a mãe assustar a criancinha dizendo que vem aí o cigano, que a vai vender ao cigano e também não gosto que desculpem tradições obscuras com o pretexto de serem parte da identidade cultural desse ou de qualquer outro povo. Tenho para mim que se deve tratar por igual o que é igual e diferentemente o que é diferente. Como os ciganos são pessoas como as outras, creio que devem ser tratados como qualquer um de nós. Vem isto a propósito das acções de Sarkozy e da onda de compreensão da cultura cigana que se seguiu. Confesso que, a mim, interessam-me sempre os indivíduos e não as culturas, para a conservação destas últimas já há museus. As culturas não podem apresentar-se como algo que “é assim”, convém que não fujam à avaliação e não tenham medo da discussão. Caso contrário, serão apenas formas de manter o poder instituído dentro delas, de tornar indiscutíveis actos que, como tudo na vida, devem ser questionados. Por isso, muito me espanta que as pessoas mais preocupadas com a liberdade cultural não se preocupem com o que se passa no seio das diversas culturas, que as aceitem passivamente porque, por muito que reflicta, chego sempre à conclusão de que liberdade só há uma: a individual. Todas as outras são opressão disfarçada. Por isso é que num país democrático a regra deve ser uma lei que garanta a liberdade dos seus cidadãos e nenhuma cultura deve sobrepor-se a ela, para que não se torne numa ameaça à liberdade, particularmente das pessoas dessas comunidades. Por isso é que acho que os ciganos não devem ser discriminados, logo, as suas práticas culturais não podem infringir as leis, ou obrigar a excepções na dita lei. É que eu não penso que os ciganos sejam todos ladrões, não é por aí que os seus possíveis crimes me assustam. O que me preocupa é que algumas das suas práticas culturais, só por si, possam ser já um crime. Na verdade, de cada vez que alguém faz uma operação de charme da cultura cigana, sobressaem uma série de características atentatórias dos mais elementares direitos humanos para os próprios membros da comunidade. Basta, para isso, recordar a reportagem do “Jornal da Noite” da SIC de 21/09/2010 e o debate que a enquadrou. Se a investigadora da Universidade do Minho que lá estava me ouvisse defender que um elemento, naturalmente um homem, deveria falar em nome de cada família ou comunidade, talvez não fosse tão compreensiva comigo. Mas, lá está, a forma de muita gente não discriminar é diferente da minha. Naquele debate, todos ouviram falar passivamente de tradições como casamentos de adolescentes combinados entre famílias e rituais de "desfloramento de virgens" com o ar mais cândido do mundo. Talvez por também não quererem que alguém viesse questionar as suas próprias tradições, se é que umas e outras não têm traços comuns. Mas eu continuo a pensar que as tradições e culturas devem ser questionadas. Por isso questiono a cigana tal como questiono a minha porque, como não me canso de repetir, não gosto de discriminações.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

O conto dos investidores

"Juros da dívida portuguesa a 10 anos sobem cinco pontos base" (http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=443629)

Bizarro comportamento este dos “investidores”... A dívida soberana portuguesa admite-se como "quase-tóxica" pelas veneráveis agências de notação financeira com nome de lordes britânicos e tom de igual presunção aglutinadora de chá e biscoitos. Todavia, estes mamíferos compram dívida como loucos, exigindo o pagamento de juros acrescidos como contrapartida... Aumenta a procura, o preço desce: preceito dos fundamentais do mercado que aparentemente não se aplica aqui, ou na comercialização do petróleo, ou na comercialização de imóveis, ou na comercialização de automóveis, ou na comercialização de rabanetes, bom não se aplica em coisa quase nenhuma.
Vou contar uma história: era uma vez um conjunto de "investidores" do reino da Terra do Nunca que andaram a alimentar um monopólio durante anos e anos com produtos imobiliários. Quando um deles reparou que estavam perigosamente perto dos valores das notas do jogo de sociedade da Parker Brothers, disseram todos: “Vamos ficar pobres!!! Temos de vender fundos de investimento imobiliário e comprar «commodities»!!!”. Viraram-se então para o arroz, a soja, o café, o trigo, o algodão, o feijão e, especula-se, o bem sucedido mercado das sandes de couratos. Nessa altura, deixou de se falar em crise imobiliária para se falar em crise do mercado das "commodities" e eis que a expressão "crise alimentar" começa a espreitar a informação publicamente veiculada. Mas este triste conto haveria de ter ainda mais um episódio: eis que entram em cena os Estados gordos e pesados, acompanhados por uma horda de organizações mundiais com manias filantrópicas. Armados de legisladores, cartas de direitos e sustentados em conceitos civilizacionais (pfff, palhaços...) haveriam de exercer algum controlo sobre a besta do mercado que ameaçava tornar insuportável beber um café e comer um papo seco com manteiga ao pequeno almoço. "O que fazemos agora?", perguntaram os racionais investidores, estes sofisticados seres humanos dotados de uma extraordinária capacidade premonitória e de uma invulgar indisposição para o pânico. "Vamos ficar pobres!!! Temos de vender «commodities» e comprar dívida pública!!!", concluíram de forma óbvia e inesperada. E aqui estamos nós, chegados ao capítulo actual... Entretanto, não faltam campos por cultivar, gente para trabalhar, colheitas a crescer, as vacas que continuam a produzir o mesmo leite, a mesma carne… É verdade que continuamos a ter a necessidade de gastar apenas o que produzimos, mas que diabo, já estaremos nós a produzir o que podemos? E quanto ao que produzimos, estaremos nós a ser justos na distribuição?

Na escola, quando era curioso e ou o professor não sabia do que estava a falar, ouvia muitas vezes: mais tarde vais perceber isto, para já é demasiado complexo para ti. Continuo, impacientemente, à espera de perceber algumas coisas que me rodeiam e, acredito, não serei o único. Mas há uma coisa que já consegui perceber: os tais “investidores” de quem se fala? Somos nós…

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Passeios de bicicletas

Sempre olhei para a evolução do mundo como um curva com altos e baixos mas tendencialmente crescente. Hoje, não tenho grandes dúvidas, estamos numa fase má. Serve o prelúdio para dizer que ninguém pensa já no que faz. Se a gestão da sociedade fosse um jogo de xadrez, os gestores ouviriam xeque-mate ao fim de meia dúzia de jogadas. Lembrei-me disto porque, nos últimos tempos, estive para ser atropelado por, mais ou menos, uma dezena de vezes. Onde? Em cima do passeio, claro está! Como assim?! Por bicicletas! Não sei quem teve a ideia genial de deixar circular bicicletas em cima dos passeios. Já reparei que, actualmente, a preocupação é com veículos que lançam gases para a atmosfera, por isso a bicicleta emerge rodeada de benignidade. Mas que ninguém se iluda, quem vier a levar com uma em cima rapidamente verá como as preocupações com o efeito de estufa passarão para segundo plano. Talvez tenham mudado precipitadamente o código da estrada e eu não tenha dado por isso, mas a verdade é que não me canso de ver ciclistas a atravessar em passadeiras em cima dos seus velocípedes com um ar todo prioritário, a circular em zonas reservadas a peões a velocidades de “Tour de France” e quem quiser que se desvie, aquilo é um veículo ecológico, portanto, não fará, certamente, mal a ninguém. Creio que se quem organiza as cidades circulasse a pé dentro delas tudo seria diferente. Mas a verdade é muito simples, muitas das pessoas que transformaram os centros urbanos em espaços pedestres reservaram para os seus automóveis o direito excepcional de lá entrar, por isso, se levarem com uma bicicleta pela frente resolverão tudo com uma simples pintura nova.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Portugal em estado de guerra!

Portugal está em guerra. Não se iludam, Portugal está em guerra e a comprová-lo estão as enormes colunas de espesso miasma negro acinzentado que se elevam na troposfera, sobre solo português. Por imagens assustadoramente semelhantes a estas vi já uma nação jurar perseguição sem tréguas, numa guerra sem quartel, aos terríveis perpetradores.

Portugal está em guerra. E como em qualquer nação em estado de guerra, os seus representantes públicos adoptam o comportamento adequado: tamborilam os dedos no tampo de uma mesa e assobiam para o ar enquanto acompanham a contagem decrescente para o final do Verão e da época de incêndios. É verdade, tão habitual se tornou este voraz consumidor de florestas, casas e carros de bombeiros que convivemos com ele anualmente numa época especificamente consignada para o efeito, tal e qual como a época balnear.

Portugal está em guerra. E o que se faz num estado de guerra como o que vivemos? A resposta é óbvia: compramos submarinos e “Pandurs” (veículos blindados de transporte de tropas – fui considerado “inapto”, não ignorante), alugamos helicópteros de combate a incêndios, praticamos o chamamento do pássaro “canadair” espanhol, assentamos a tarefa de apagar os incêndios na boa vontade de voluntários, fornecemos aos mesmos voluntários chibatas para açoitar as labaredas em desvairadas tentativas de dominação e submissão, e “notificamos” burocrática e simpaticamente os proprietários negligentes da necessidade de limparem as suas matas de forma a diminuir o perigo para as suas habitações e para as dos seus vizinhos.

Portugal está em guerra! Isto não é tentativa de eloquência ou estilização hiperbólica. É uma guerra com baixas, e começa pelas mais terríveis, com a perda de vidas dos soldados que estoicamente enfrentam a fornalha diabólica, dos cidadãos que não se desviam a tempo do seu caminho, das casas que não se conseguem mover, dos palermas dos esquilos, raposas, porcos-espinhos e outros com nomes mais distintos, cobardes alados incluídos, que não se organizam para combater o fogo; e das patéticas árvores que se imolam na esperança de um dia nos assombrarem com a merda da conversa: “Buuuuh! Bem vos avisamos! Que riqueza vos resta agora que desaparecemos? Hum?”.

Portugal está em guerra. Mas nem uma palavra nos noticiários sobre propostas compatíveis com a obliteração do inimigo, está tudo demasiado ocupado a ensaiar uma pose de santola acabadinha de sofrer um acidente vascular cerebral, para ver se o momento “kodak” aparece no telejornal da SIC. Porquê? Não vale a pena, é assim todos os anos, tão incontornável como o IRS ou um programa apresentado pelo Malato na RTP1… São os vidros de garrafas, as beatas de cigarros, essa paradoxal simbiose entre madeireiros e fabricantes de mobiliário queimado, as condições climatéricas, o mato seco que entra em combustão espontânea… É muita coisa… Daí que se compreenda que poupar os nossos idosos às horas de maior calor seja mais do que avisado, atendendo a que a ressequida senescência que os caracteriza também a eles os pode colocar em estado de combustão espontânea.

Portugal está em guerra. E entretanto lá se vai assumindo, timidamente, que no cocktail de negligência e piromania se filia a esmagadora maioria dos fogos florestais, na categoria das “causas humanas”. Pirómanos, raio de fetiche este… apanham-se de férias e lá vão eles todos arteiros para o seu passatempo favorito, atear um fogo na mancha florestal mais próxima… Como será que um pirómano se vê a si mesmo nos “gostos e interesses” do “facebook”? “Portugal a arder”?! E citações favoritas? Nero, de harpa na mão, como fabulosamente interpretado em 1951 por Peter Ustinov em “Quo Vadis”: “Wo ho, ó chamas bruxuleantes”?!

Portugal está em guerra! Está em guerra consigo mesmo, está em guerra com uma percepção. A percepção de que esta realidade é irremediável, que não importa encontrar um equivalente penal, ainda que mantendo a mesma matriz napoleónica, para “fechar os pirómanos e deitar fora as chaves”, que não importa reestruturar as forças armadas e profissionalizá-las num referencial de utilidade do domínio busca/salvamento/resposta a catástrofes naturais, que não importa patrulhar florestas com câmaras e homens, que não importa desfazer conflitos de interesses metastizados na contratação externa de meios e serviços privados de combate a incêndios, que não importa tomar posse administrativa de terrenos cuja ignição representa perigo para a vida e posses materiais de terceiros e cuja limpeza de segurança é sistematicamente ignorada pelos seus proprietários…

Portugal está em guerra e a primeira batalha desta guerra é pessoal, trava-se em frente a um espelho. Só depois deixará de se travar nos arbustos anónimos, nos matos protegidos, no quintal de uma das nossas casas, nas costas de alguém que nos é próximo…

terça-feira, 27 de julho de 2010

Duas breves aldrabices

Não costumo vir para aqui falar de bola, até para não irritar os seguidores deste blog que, começo a suspeitar, rondarão um número inferior a um. Mas hoje cá vai. De cada vez que acontece um erro claro de arbitragem no futebol eu penso: ora aí está o último prego no caixão da FIFA. Depois do último mundial, cheguei à conclusão de que, por muitos que se espetem, parece que a urna nunca mais fica fechada. É que desta vez, a propósito dos jogos Argentina-México e Inglaterra-Alemanha, até o presidente do organismo veio falar em meios tecnológicos para ajudar os árbitros. É um homem de palavra. Só é pena que não seja sempre da mesma. E esta já mudou.
Quem gosta de usar sempre a mesma palavra são as televisões. Particularmente se esta for “Estreia”. De 5 para 6 de Julho de 2010 a TVI passou uma série ou um filme chamado “Impacto”, dizendo que era, justamente, uma estreia. O problema é que já tinha dado pelo menos duas vezes no mesmo canal. Para quem chamava tão mentiroso ao primeiro-ministro, seguem-lhe bem as pisadas.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Brincar à “inovação”

Se o “Gregos e Troianos” deu origem ao “Prós e Contras”, o “Prós e Contras” está bem encaminhado para dar origem à “Exponor”. Num dos últimos programas, em 7 de Junho, creio eu, volta e meia aparecia um artista a tentar vender um produto qualquer que me parecia tão inovador como… a roda! Um tipo mostrava um ecrã táctil multi-toques que, veja-se lá, poderia um dia vir a equipar aviões! Esperemos que não. A julgar pela dificuldade que Fátima Campos Ferreira demonstrava no seu manuseamento, eu nunca voltaria a olhar para o céu sem pensar no que me poderia cair em cima. Uma tal de cientista mostrava um conjunto de brinquedos que simulavam experiências supostamente científicas. Um deles era um vulcão que funcionava à base de vinagre e bicarbonato… constituintes dos magmas de mesa. O companheiro da cientista dizia que aqueles brinquedos, entre os quais figuravam ainda uma espécie de mini-aerogerador e outra espécie de mini-hidrogerador, não eram para pais que queriam simplesmente entreter os filhos, mas para aqueles que queriam passar um tempo de qualidade com os ditos filhos e aprender alguma coisa. Ora, se os pais concluíram o 9º ano, já não podem aprender grande coisa com aquilo, se não atingiram essa escolaridade, dificilmente poderão entender o que ali se passa. Resumindo, os brinquedos em particular e as “inovações” em geral eram engraçados mas, cá para mim, têm tanta capacidade para salvar o país como os bonecos da Playmobil!

quinta-feira, 27 de maio de 2010

A problemática do "Bufo" no contexto português - um olhar crítico

No dia em que eu vir alguém a gamar a casa do vizinho terei dúvidas se deverei denunciar a ocorrência. É que me habituei a ouvir dizer que ser queixinhas é muito feio, uma espécie de bufo, daqueles tipos que iam contar à PIDE os actos políticos que à data eram crime. Qualquer miúdo do ciclo sabe desde cedo que pode ser indisciplinado, fazer trinta por uma linha, não estudar patavina, agora, queixinhas é que nem pensar, se alguém lhe desanda um banano nas trombas há que comer e calar se não for capaz de responder! Até o bastonário da Ordem dos Advogados conhece a regra, ataques generalizados tudo bem, pôr nomes nas coisas nem pensar, que ele, lá está, não é nenhum bufo. Por isso, sempre que vejo um espertalhão a tentar passar-me a perna, ou tento rasteirá-lo também, ou sigo a regra dos gentlemen e calo-me que nem um rato. A honra não tem preço, não me vou pôr para aí a dizer que há gente que não respeita os outros. Deste modo, se és criminoso, não tenhas medo! Neste país, se não houver polícia por perto na hora do crime, ninguém te vai denunciar! Talvez seja por isso que é tão difícil de combater a corrupção! Talvez tenha sido por isso que ficámos sem dinheiro nos cofres, ninguém se lembrou de se contra-manifestar quando alguns se manifestavam por remunerações maiores do que as que o país podia pagar. Mas o mundo parece que é mesmo assim e, por isso, aprendi com gente da mais fina-flor que razão tinha aquele pensador que prosava nas paredes da casa de banho da minha escola secundária. Dizia ele num tom assertivo: “A escola é de todos, fode a tua parte”!

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Postura de estado e direito à incoerência - um caso de estudo

Todo o reino dividido contra si mesmo é devastado. Assim falava o Mestre há milhares de anos atrás. Bagão Félix, que dá a ideia de ver no Mestre o seu mestre, parece que não aprendeu a lição. Viu-se à solta a tentar subir um “Plano Inclinado” e cá vai disto. Quando Nuno Crato disse que em Portugal os filhos acabam a viver no mesmo bairro que os pais, ao contrário do que acontece nos Estados Unidos, onde anda tudo de um lado para o outro, ele apressou-se a fazer um gesto de concordância, como quem diz que isto, realmente, não é digno de um país decente. Ora, um homem que defende que as famílias se amontoem tradicionalmente dentro de uma mesma casa: avós, pais, filhos e netos, acha mal que toda essa mesma gente se amontoe dentro do mesmo bairro?! Perdoem-me o estilo matemático, mas se o bairro contém a casa, estar dentro da mesma casa não significa que se está dentro do mesmo bairro?! Se um Bagão tivesse as mesmas propriedades de um reino já teria caído, minado por dentro. Mas um homem com postura de estado, ou mesmo de auxiliar de Eucaristia dominical, pode dizer uma coisa hoje e outra amanhã, sem que se quebre a estrutura que o suporta. Tem uma credibilidade à prova de incoerência, pode aconselhar um estilo de vida à maneira de “Feios, Porcos e Maus” no Sábado e, sem negar o anterior, outro ao estilo Beverly Hills/Manhattan no Domingo. Ninguém repara nisso, seria provavelmente demagógico… ou pior ainda: picuinhas! Talvez seja mesmo o meu caso. Mas o meu estilo demagogo-picuinhas é mesmo assim, influencia a minha confiança nos opinion makers, confiança essa que, ao contrário da credibilidade de alguns, estremece facilmente com as incongruências.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Os profetas da desgraça... estrangeiros.

Quando são portugueses a dizer estas mesmas coisas, são apelidados de "profetas da desgraça", "alarmistas" e coisas piores. Por isso aqui vai um texto em "estrangeiro", o que como todos sabemos, dá logo outra credibilidade ao conteúdo...

The Next Global Problem: Portugal

"The bailout of Greece, while still not fully consummated, has brought an eerie calm in European financial markets.

It is, for sure, a huge bailout by historical standards. With the planned addition of International Monetary Fund money, the Greeks will receive 18 percent of their gross domestic product in one year at preferential interest rates. This equals 4,000 euros per person, and will be spent in roughly 11 months.
Despite this eye-popping sum, the bailout does nothing to resolve the many problems that persist. Indeed, it probably makes the euro zone a much more dangerous place for the next few years.

Next on the radar will be Portugal. This nation has largely missed the spotlight, if only because Greece spiraled downward. But both are economically on the verge of bankruptcy, and they each look far riskier than Argentina did back in 2001 when it succumbed to default.

Portugal spent too much over the last several years, building its debt up to 78 percent of G.D.P. at the end of 2009 (compared with Greece’s 114 percent of G.D.P. and Argentina’s 62 percent of G.D.P. at default). The debt has been largely financed by foreigners, and as with Greece, the country has not paid interest outright, but instead refinances its interest payments each year by issuing new debt. By 2012 Portugal’s debt-to-G.D.P. ratio should reach 108 percent of G.D.P. if the country meets its planned budget deficit targets. At some point financial markets will simply refuse to finance this Ponzi game.

The main problem that Portugal faces, like Greece, Ireland and Spain, is that it is stuck with a highly overvalued exchange rate when it is in need of far-reaching fiscal adjustment. For example, just to keep its debt stock constant and pay annual interest on debt at an optimistic 5 percent interest rate, the country would need to run a primary surplus of 5.4 percent of G.D.P. by 2012. With a planned primary deficit of 5.2 percent of G.D.P. this year (i.e., a budget surplus, excluding interest payments), it needs roughly 10 percent of G.D.P. in fiscal tightening. It is nearly impossible to do this in a fixed exchange-rate regime — i.e., the euro zone — without vast unemployment. The government can expect several years of high unemployment and tough politics, even if it is to extract itself from this mess.

Neither Greek nor Portuguese political leaders are prepared to make the needed cuts. The Greeks have announced minor budget changes, and are now holding out for their 45 billion euro package while implicitly threatening a messy default on the rest of Europe if they do not get what they want — and when they want it. The Portuguese are not even discussing serious cuts. In their 2010 budget, they plan a budget deficit of 8.3 percent of G.D.P., roughly equal to the 2009 budget deficit (9.4 percent). They are waiting and hoping that they may grow out of this mess — but such growth could come only from an amazing global economic boom.

While these nations delay, the European Union with its bailout programs — assisted by Jean-Claude Trichet’s European Central Bank — provides financing. The governments issue bonds; European commercial banks buy them and then deposit these at the European Central Bank as collateral for freshly printed money. The bank has become the silent facilitator of profligate spending in the euro zone. Last week the European Central Bank had a chance to dismantle this doom machine when the board of governors announced new rules for determining what debts could be used as collateral at the central bank.

Some anticipated the central bank might plan to tighten the rules gradually, thereby preventing the Greek government from issuing too many new bonds that could be financed at the bank. But the bank did not do that. In fact, the bank’s governors did the opposite: they made it even easier for Greece, Portugal and any other nation to borrow in 2011 and beyond. Indeed, under the new lax rules you need only to convince one rating agency (and we all know how easy that is) that your debt is not junk in order to get financing from the European Central Bank. Today, despite the clear dangers and huge debts, all three rating agencies are surely scared to take the politically charged step of declaring that Greek debt is junk. They are similarly afraid to touch Portugal.

So what next for Portugal?

Pity the serious Portuguese politician who argues that fiscal probity calls for early belt-tightening. The European Union, the European Central Bank and the Greeks have all proven that the euro zone nations have no threshold for pain, and European Union money will be there for anyone who wants it. The Portuguese politicians can do nothing but wait for the situation to get worse, and then demand their bailout package, too. No doubt Greece will be back next year for more. And the nations that “foolishly” already started their austerity, such as Ireland and Italy, must surely be wondering whether they too should take the less austere path.

There seems to be no logic in the system, but perhaps there is a logical outcome.
Europe will eventually grow tired of bailing out its weaker countries. The Germans will probably pull that plug first. The longer we wait to see fiscal probity established, at the European Central Bank and the European Union, and within each nation, the more debt will be built up, and the more dangerous the situation will get. When the plug is finally pulled, at least one nation will end up in a painful default; unfortunately, the way we are heading, the problems could be even more widespread."

Artigo de Peter Boone e Simon Johnson publicado no The New York Times. (link)

terça-feira, 30 de março de 2010

Xadrez jornalístico

Nos jogos de xadrez costuma-se utilizar um relógio para cada jogador. Depois de ter visto as entrevistas de Miguel Sousa Tavares ao Primeiro-Ministro e a Gonçalo Amaral e de me lembrar de uma grande quantidade de entrevistas conduzidas por Judite de Sousa, Constança Cunha e Sá e uma data de outros entrevistadores, proponho que se faça como nos jogos de xadrez. Coloquemos um relógio do lado do entrevistado e outro do entrevistador e contemos os tempos. Sempre que o do entrevistador for maior, mudemos o nome do programa de “entrevista” para “interrupções”.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

In dubio pra língua oficial

Muita gente reclama para Portugal uma justiça que funcione. Dizem que é tudo muito demorado e complexo. Eu, quando passo perto de um tribunal, naquele edifício onde se lê Domvs Ivstitiae, e me lembro dos Habeas corpus que por ali circulam e que se aplica o princípio do In Dubio Pro Reo, já não peço uma justiça portuguesa satisfatória, peço apenas uma justiça falada em português. Era um bom princípio. Anda tanta gente preocupada com os cantores que cantam em inglês e não há quem se insurja contra os juristas que traem a língua mãe, não com uma mais fresca e viçosa, mas com uma cadavérica e flácida, tão morta como o Latim, numa espécie de necrofilia linguística. Eu, que me considero o Manuel Moura dos Santos da justiça, acho que nos tribunais portugueses só se deveria cantar, digo, falar em português. Línguas estrangeiras deixaria para os cantores que, se forem mal entendidos, apesar de tudo, não metem ninguém na cadeia.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Salazar e os isqueiros versus a democracia e as placas

Salazar odiava isqueiros, a democracia parece que odeia vendas de carros. Publicitar a disponibilidade de um carro para venda está, nos dias que correm, quase tão difícil como publicitar serviços de prostituição. Este último negócio divulga os seus préstimos nas páginas dos jornais em troca de… beijinhos, beijinhos esses que só um idiota topo de gama não conseguiria perceber que correspondem a euros; nos carros, talvez para evitar equívocos que os beijinhos poderiam criar, põem-se placas com inscrições do género “procuro novo dono” ou “troco por euros”. Tudo porque é proibido a venda de carros na via pública. E por vendas não se entenda a abertura de um stand na faixa de rodagem, entenda-se a simples colocação de uma placa com a palavra “vendo” na viatura. Só posso agradecer a iniciativa de quem não olha a esforços para defender o interesse público. De facto, se a ideia por trás desta regra era impedir que os parques de estacionamento se transformassem em montras de carros usados, uma espécie de Amesterdão do mundo automóvel, o êxito foi total. Por via dessa medida, nos últimos anos, o aumento da disponibilidade de lugares de estacionamento tem sido exponencial. Já para não falar nas nossas crianças, que foram poupadas ao flagelo da venda de usados em locais públicos em plena luz do dia. Agora só falta disponibilizar uma verba para criar uma polícia, não dos isqueiros, mas das placas “vende-se” e podemos todos dar graças pelo empenho que os nossos representantes têm em criar-nos problemas novos com o dinheiro que lhes pagamos para nos ajudarem a resolver os problemas de sempre.