terça-feira, 30 de novembro de 2010

Tiros nos pés para fazer esquecer as dores de dentes

É sabido que a consciência de cada um não é razão suficiente para levar um lado a tomar decisões que tenham em conta a outra parte interessada numa determinada questão. Por isso se decidiu, nas questões laborais, proteger a parte mais frágil com uma série de direitos, incluindo a greve. Porém, hoje em dia, para uma boa fatia das profissões que preenchem a paleta ocupacional da chamada classe média, fazer greve exige tão poucos sacrifícios que o único obstáculo é a consciência de cada um que, como já se viu, não é travão fiável. Só por esta razão é que posso compreender a frequência com que se verificam greves na função pública, particularmente entre os profissionais de saúde e de educação que, convenhamos, estão longe de ser os desfavorecidos do país. Este tipo de protesto banalizou-se tanto que duvido até que ainda alguém lhe dê muita atenção. Se não há médico, sofre-se e pronto. Sofre quem sofre, que se tiver dinheiro para pagar uma consulta privada, aí não vai ter dificuldades com grandes paralisações. Assim, tomando como exemplo esta última classe, com o apoio das forças partidárias que mais reivindicam os louros da defesa dos desfavorecidos, qualquer médico, com o seu salário bem superior à média nacional, teve toda a razão em fazer greve na quarta-feira passada (24/11/2010), deixando sem consulta uma data de pessoas nos centros de saúde e hospitais, gente que ganha bem menos do que esse médico, visto que, se assim não fosse, poderia muito bem recorrer à medicina privada onde, vá-se lá saber porquê, as greves não se fazem sentir tanto. Enquanto a classe média, que tem emprego garantido, anda entretida a evitar os pesos que lhe possam carregar a consciência, a ministra da saúde, que tutela uma parte dessa classe, preocupa-se com… as cesarianas. Creio que este será até o seu assunto predilecto. Volta e meia, lá vem ela dizer que há cesarianas a mais neste país, cesarianas essas que até são pedidas pelas parturientes. Mas a senhora sente-se incomodada, quer que haja indicação clínica para tal, que isto aqui não é uma rebaldaria, é um país onde há boas práticas a seguir. Quem manda no parir das outras é o médico de serviço, por influência divina da Sr.ª Ministra, olarila. Está muito bem, enquanto o Serviço Nacional de Saúde se desfaz, a preocupação da sua responsável máxima não é encontrar soluções para essa situação, nem abrir unidades de cuidados paliativos, nem sequer fazer alguma coisa relativamente aos medicamentos mais recentes que o país não tem dinheiro para pagar. A opção é atacar o drama das mulheres que se acham no direito de escolher uma cesariana! Enfim, é um pouco como a greve geral da semana passada: Tiros nos pés para fazer esquecer as dores de dentes!