Perguntava um dia Abraão ao Senhor, temeroso como convinha, se a destruição prosseguiria caso houvesse dez justos na cidade. Falava-se de Sodoma que, pouco tempo depois, cairia em parceria com Gomorra. Deus disse que não mas, pelos vistos, segundo o seu critério, tal número lá não existia e as cidades arderam. Suspeito de que alguma cena como esta inspirará aquelas criaturas que, volta e meia, aparecem no espaço público a lembrar que, tal como em todas as áreas da vida, também na apreciação do elenco político não se deve confundir a árvore com a floresta. Ora, eu não poderia estar mais de acordo. Não se deve confundir um ou outro político dedicado com a generalidade de abusadores que constitui a classe. Não nos deixemos iludir, a generalidade é mesmo para arrasar! Por muito menos terá Deus arrasado Sodoma que, a passar-se ali o que ficou célebre, mal nenhum trouxe ao mundo. Dissoluta é a vida em S. Bento, lá onde a democracia se dissolve entre insultos e a cegueira branca de Saramago só não causa mais estragos porque o espaço aberto pela ausência de pensamento não podia estar mais vazio e despido de obstáculos. Na arena em que a Assembleia da República se transformou houve quem ficasse espantado com a aparição de um touro ministerial. Mas, vendo bem as coisas, parece que aquele lugar desde sempre lhe esteve reservado. Era uma questão de tempo até que alguém abrisse a porta dos curros. Com uma conversa lateral, qual aluno do 5ºC, Bernardino Soares fez o papel na perfeição! Na tourada parlamentar, porém, não têm brilhado só os cornos do ex-ministro Pinho. Brilham também os ferros teatrais e fanfarrões do cavaleiro Rangel, as pegas sem chama de Alberto Martins, a lide previsível do PCP e, visto que se me esgotaram as metáforas tauromáquicas, as bocas moralistas de Portas e Louça, de confissões antagónicas mas igualmente irritantes. Aliás, ali já tudo irrita: desde o estilo sonolento de Manuel Alegre ao sorriso provocador de Augusto Santos Silva. Para usar uma expressão cara aos amantes de Nova Iorque, neste melting pot cultural, onde até ameaças de porrada já se ouviram, estava-se mesmo a ver que era só esperar até que alguém abreviasse o léxico parlamentar e saltasse do “Vossa Excelência, durante a campanha eleitoral, apegou-se em demasia ao comportamento do gado bovino” para a simples demonstração gestual de um par de cornos.
Por estas e por outras, os rufias de S. Bento, sem Abraão que os defenda, têm de tomar a palavra para ganir: “Olhem bem que, cá pelo meio, ainda é possível que se aproveitem dez.” Não sigamos, porém, o raciocínio errado de Deus. Não deixemos impune o pecador para que não pague o justo. Separemos rapidamente este último e deixemos que a nossa ira divina caia sobre o primeiro enquanto ainda há democracia para salvar.
Por estas e por outras, os rufias de S. Bento, sem Abraão que os defenda, têm de tomar a palavra para ganir: “Olhem bem que, cá pelo meio, ainda é possível que se aproveitem dez.” Não sigamos, porém, o raciocínio errado de Deus. Não deixemos impune o pecador para que não pague o justo. Separemos rapidamente este último e deixemos que a nossa ira divina caia sobre o primeiro enquanto ainda há democracia para salvar.
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