quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Portugal precisa de enriquecer… urânio!


A julgar pela evolução recente da infografia publicada no caderno económico do Expresso, o “Índice Gaspar”, os esforços nacionais para regressar aos mercados da dívida através da conquista da confiança dos investidores correm sérios riscos de soçobrar. Pelo menos o boneco do gato tem um sorriso invertido, o que normalmente é sinal de que o felídeo não vai bem. Paul Krugman, famoso esquerdista honoris causa… perdão, economista laureado, usa a imagem da “fada da confiança” para ilustrar o que considera tratar-se de um esforço errado de austeridade expansionista pró-cíclica, que reforça a recessão económica, e para a qual não vê saída, na Europa, nos EUA ou nas galáxias distantes onde esta contenda de escolas de pensamento económico, friedmanitas versus cheguevaristas, ameaça lançar uma sombra sobre a força do milagre da multiplicação dos direitos adquiridos nas repúblicas emissoras de dívida soberana.
Pois eu julgo ter chegado a hora de adoptar uma nova estratégia e combater o jugo da imperatriz Merkel e o seu delfim Vítor Darth Gaspar Vader. A proposta consiste em aprender alguma coisa com o exemplo pioneiro dos iranianos e dos norte-coreanos: vamos usar parte do dinheiro da troika para promover um programa nuclear! É isso mesmo, vamos colocar Portugal no mapa das potências nucleares, sob o auspício de simbologia de risco apropriada, desta feita aquele símbolo de perigo de radiação. Afinal de contas, já nos cravaram com o rótulo de lixo financeiro, não antevejo daí desvantagem estética.

Claro que, para já e retomando uma proposta em tempos apresentada por Patrick Monteiro de Barros  (e ostracizada pelas virgens ecologetas da diocese palaciana de Lisboa), vamos dizer que o programa se destina à produção de energia eléctrica e, insidiosamente acompanhados de riso maléfico, começamos a enriquecer o urânio das minas de Canas de Senhorim no interior de fornos de fogões da marca Meireles, com o propósito da produção da primeira arma nuclear lusa, sempre com mão-de-obra e produção nacionais. Se um banco (BPN) coube numa mala de mão, não vejo motivos para uma arma termonuclear não caber num Meireles de 44 litros com 4 queimadores a gás. A arma terá o perfil militar perfeito, e ainda um certo panache: mobilidade, camuflagem doméstica, versatilidade bilha/rede, e vem com tabuleiro de recolha de molhos.
Vejo facilidades e dificuldades. Vamos às primeiras: aprimorar a tecnologia poderá beneficiar do recurso ao saber fazer das múmias leninistas que sabem tudo sobre flectir rudemente os músculos à comunidade internacional e estão ansiosas por restaurar a liberdade e a prosperidade de uma economia integralmente planeada. A guarda revolucionária constitui-se com facilidade, basta recrutar entre piquetes de greve ferroviária e paralisação de camionistas. O grande líder está escolhido –  Arménio Carlos – e a sua consagração será assinalada por uma salva de cocktails Molotov na escadaria do palácio de S. Bento.
Quanto a dificuldades, bom, temo que esta nobre empresa nuclear venha a custar alguns milhares de milhões de euros, pelo que será provavelmente necessário adoptar alguma austeridade para a financiar. Precisaremos pois de um ministro das finanças credível, inflexível nesse propósito, um homem com perfil técnico irrepreensível, que saiba fazer contas em Excel, um governo Seguro do seu rumo e que governe pela rua e não para a rua, um governo que não tema manifestações, um governo… diferente, mais user friendly.
Portanto, ao invés de promover a confiança, vamos promover o cagaço na europa. Vamos dar corpo à ameaça de estourar literalmente com a zona euro e no seu lugar deixar um grande cogumelo atómico. Pode ser que assim regresse o investimento, não por confiança, mas por miúfa. Um e outro ocupam o mesmo plano de afirmação meritória da nossa capacidade enquanto país. Mas a miúfa é sempre mais fácil de promover e não cansa tanto. Veja-se a escola: os fanfarrões e galifões ficam com as gajas todas, e não é porque se revelam escrupulosos cumpridores dos planos da troika escolar, bem pelo contrário.
Afinal de contas, somos um país orgulhoso das suas tradições de irreverência cívica! Em 900 anos de história, mais de 100 foram passados a resistir pacificamente, com beatífica contemplação e complacência, ao domínio de estrangeiros e ditadores (não, não estou a incluir as 3 intervenções do FMI dos últimos 38 anos de democracia).
Para além do mais, no final deste esforço, teríamos sempre a possibilidade de aumentar o interesse das cerimónias da tomada de posse de órgãos de soberania com o trespasse da pasta contendo os códigos do arsenal nuclear e os contratos de aquisição do Arpão e do Tridente (os submarinos, acordem!), a propósito dos quais poderíamos mais tarde ler detalhadamente na edição do Sol, do Público ou do Expresso.
Resta apenas uma reflexão final: quem é que fica com os fósforos para acender o Meireles?

domingo, 3 de junho de 2012

Pare, escute, olhe e leia o prefácio deste sinal

Caminhar pelas ruas de uma cidade, onde a roda-viva dos afazeres diários conquista ao enquadramento a disputa pela nossa atenção, é uma oportunidade para desfrutar de pequenos prazeres e sensações que habitualmente passam despercebidos no interior de um automóvel. A beleza do caixilho arbóreo, os padrões da deposição aleatória das folhas de caducifólias, o íntimo dealbar de uma folha de jornal com o vento que a torce e acaricia, a detecção olfactiva do metro quadrado de calçada mais urinado da cidade, a familiaridade da prostituta de percepção fugaz no trânsito de fim de tarde, enfim, testemunhos da urbanidade, marcas da sifiliza... perdão, civilização.
Mas nada mais espantoso que a evolução estética da sinalização vertical de trânsito agora empregue na moderna urbe. Placas com indicações escritas fartas, distribuídas por várias linhas de texto que adornam e condicionam, agora, a outrora percepção intuitiva das outrora formas geométricas simples articuladas com cores, alternantes ou não, que caracterizavam a velha sinalização vertical. Horários, tipos de veículos, texto, símbolos pequenos sobre fundo branco, uma verborreia interminável, um verdadeiro prefácio, muitas vezes posfácio, daquele instrumento de prescrição rodoviária. Impossíveis de ler, a não ser no âmbito da calmaria de uma incursão pedonal. Antes um semáforo, um stop, um sentido obrigatório, agora tudo isso mas... dependendo das horas, do veículo conduzido, da cor, do cheiro, da altura do condutor, pode ser tudo bem diferente.
Como se não bastasse ao condutor a repartição de recursos intelectuais e físicos pela manobra mecânica da besta automóvel, com os seus pedais, alavancas, ruídos, botões, computadores de bordo, computadores fora de bordo, a manipulação do cigarro, a manipulação do telemóvel, a tentativa de impedir a Rute Vanessa de enfiar o “pokémon” pela goela abaixo do pequeno Izequiel Luís, a tentativa de evitar o terço difundido pela Rádio Renascença, a necessidade de exortar o condutor dianteiro, com alusões a um estatuto de bastardo acompanhadas por um manguito bem erecto, para a urgência de arrancar no verde que acaba de cair; como se não bastasse tudo isso, dizia, agora o condutor tem de “ler” os sinais, literalmente.
Pergunto-me se não será este o conceito de “cidade inteligente” que frequentemente se apregoa em justificação da manutenção do caos de coelheira em que se tornaram as nossas metrópoles. Se assim é, de mais estudo precisarei. Mais de 20 anos repartidos entre ensino obrigatório, secundário e superior não são suficientes para gerir tamanha complexidade.
Ou serão estes os primeiros sintomas da mobilidade interna decretada sobre o pessoal da função pública? Transferiram a malta do Plano Nacional de Leitura para a Prevenção Rodoviária? Não tarda nada teremos cesarianas nas aulas de Técnicas Laboratoriais de Biologia e Estudo Acompanhado nas alas de psiquiatria.
O que quer que seja, é o fim dos tempos em que alguém do lugar do passageiro dirá: “passaste um vermelho, querido”. O diálogo enriquece, a segurança empobrece:
− Aquilo era um stop, querida?
− Ah, pá, não sei, só consegui ler o primeiro parágrafo, querido.


[Avenida João XXI (Braga): 4.599.954 N; 548.893 E]


terça-feira, 22 de maio de 2012

Dispor do futuro


Escreveu Blaise Pascal que “antecipamos o futuro como lento demais para chegar, como para apressar o seu curso (...) Quase não pensamos no presente, e se nele pensamos é somente para nele buscar a luz para dispormos do futuro. O presente nunca é o nosso fim. O passado e o presente são os nossos meios, só o futuro é o nosso fim.” (“Pensées”, Blaise Pascal, 1670). Permito-me discordar deste “tudólogo” do século XVII e dos fragmentos do seu pensamento, que habilidosamente surripiei para aqui. Antes de mais nada porque a universalidade de conhecimento deste matemático, filósofo, moralista e teólogo, só pode ser justificada à luz de uma grande superficialidade em qualquer um dos domínios. Afinal de contas, quem é que hoje não tem, pelo menos, duas licenciaturas em cada uma destas áreas? Ademais porque os tempos que correm me apresentam provas avassaladoras de que antecipamos o futuro e dele dispomos precisamente para engalanar com alarve o presente em que vivemos. Vejamos então:

[1] Malthus viu gorado o seu vaticínio sobre a dificuldade em alimentar o planeta porque a vontade de viver o presente é tanta que convocamos para a grande máquina económica milhões de anos de energia do sol armazenada nos combustíveis fósseis, que queimamos àvidamente, a um ritmo várias vezes superior ao dos ciclos naturais de regeneração energética e assimilação das consequências, e a um ponto em que o vício neles contido é agora um impecilho para vislumbrar um futuro mais auspicioso.
[2] O abandono do preconceito medieval com a usura dotou o português médio da possibilidade de antecipar os rendimentos dos netos dos seus netos, com o objectivo de satisfazer a urgência das debilidades familiares actuais com dois automóveis do tamanho de veículos blindados anfíbios, uma casa inspirada no modelo “LEGO” e roupa de marca registada no conceito vaqueiro-do-texas/vagabundo-de-vão-de-escada-com-calças-a-cair-pelu-cu-abaixo.
[3] O Estado espremeu aos seus credores com voracidade a antecipação dos rendimentos de várias gerações de portugueses, cumprindo com louvável afinco o dito “não deixes para daqui a 30 anos tudo aquilo que podes gastar já”.
[4] O sistema financeiro empossou-se de faculdades bíblicas e olhai, eis que se multiplicaram os produtos financeiros, entre os quais os contratos de futuros recolhem a minha simpática admiração, num exercício especulativo geral “no qual (dizia Keynes) devotamos a nossa inteligência a antecipar o que a opinião geral espera que seja a opinião geral”.
[5] As festas estudantis, queimas, enterros, viagens de finalistas e outros instrumentos de especulação académica com igual exuberância (e custo) protocolar, nos quais se exercita a antecipação de uma avaliação cujos resultados se desconhecem e que, muitas vezes em virtude de derrapagens na empreitada do festejo, resulta na necessidade de o empreender novamente, com acréscimo de experiência (e de matrículas) para o protagonista.
[6] O baptismo, associação clubística e outros ritos de iniciação para infantes, nascituros e zigotos, onde a inscrição prematura numa agremiação antecipa para a celebração familiar “quasi”-divorciada a vontade futura do pequeno careca com fome de leite e diarreico gugudádá, que nem é tido nem achado.
[7] Os pagamentos por conta (PC), pagamentos especiais por conta (PEC) e outros excitantes instrumentos de intervenção fiscal concebidos por governos de patifes neo-liberais, através dos quais se antecipam impostos baseados nas receitas empresariais de anos porvir, numa fascinante e intrigante eltrocussão (choque, no folheto para eleitor ler) fiscal.
[8] (O último e o meu favorito) A figura da prisão preventiva, uma fabulosa arma de combate ao crime que, se empregue de maneira a que o tio Augusto não telefone da secretaria do tribunal a informar o prevaricador de que se deve enfiar num avião com destino a Copacabana, antecipa a pena do presumível inocente, que, pelo sim pelo não, “dá à casa” e na eventualidade de ter havido lapso, reverte o saldo em favor do cartão, pontos que dão descontos na cadeia do sistema prisional português.

Portanto, se Pascal pensasse agora, provavelmente fá-lo-ia bem ocupado com constrangimentos muito presentes, eventualmente no gozo do conforto dos calabouços da prisão preventiva, em virtude da investigação a um crédito mal cheiroso, contraído para financiar o buraco financeiro resultante da exposição a “activos tóxicos” consubstanciados em bilhetes do tesouro português, por sua vez emitidos para financiar a prisão e o tribunal que o condenou, juntamente com a supervisão que não o detectou e a devolução do IRS que apurou com a dedução dos juros do crédito à habitação malparado; num ciclo que se renova, nada cria, nada transforma, apenas antecipa-oblitera felicidade futura.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Intervalo

Dirijo esta mensagem a mim mesmo porque, como já disse, creio não haver muitos mais leitores deste blog. Se eu fizer as contas verei que tentei fazer publicações mensais. Mas, pelo menos por algum tempo, não conseguirei voltar a fazê-lo. Por isso, venho comunicar-me que não voltarei a ler as minhas opiniões tão cedo, quando muito, lê-las-ei esporadicamente. Estou convencido de que o mundo prosseguirá mesmo sem elas, isto só mostra como o dito mundo é arrogante e ensimesmado, para usar um termo querido a um dos meus primeiros objectos de reflexão: o Prof. Marcelo. Apesar disso, espero um dia continuar o que ficou por dizer, histórias deixadas a meio e outras por contar. Mas até lá, vejo-me por aí.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Eleições presidenciais – uma escalada para o fundo

Há semanas em que mais valia ficar na cama. As últimas foram um bom exemplo disso, dificilmente as eleições presidenciais poderiam ter sido um maior calvário de descalabros sequenciais ate ao descalabro final. Primeiro, as televisões anteciparam-se aos acontecimentos e, vai daí, toca a fazer debates antes dos candidatos estarem completamente definidos. Consequência: esqueceram-se de José Manuel Coelho. E quando Judite de Sousa se lembrou de o convidar para a sua “Grande Entrevista”, se alguém pensava que estava a tentar emendar a mão, viu-se defraudado. Afinal, só o tinha lá levado para lhe dizer que ele era um menino mal comportado e sem vergonha na cara. Reconhecer que o tinham discriminado? Isso e que era bom. Não lhe dizia respeito, ela não manda na RTP. Só dá a cara pela empresa, mas não recebe reclamações. Sempre que derem elogios à instituição ela veste a camisola, quando a história for menos favorável, despe-a com uma velocidade impressionante. Mas se Coelho não foi aos debates, pouco terá perdido a sua campanha: quase ninguém os viu. E eu, que sempre que pude os vi, só posso dizer que foram muito fraquinhos, verdadeiramente desinteressantes. O que é sempre interessante é ver Cavaco Silva em campanha. Volta e meia lá mostra o lugar que a sua mulher ocupa na hierarquia das coisas. Desta vez, em resposta a uma outra mulher que lamentava o valor da sua reforma, ele atirou-lhe com algo como: Olhe, a minha mulher, que foi professora, ganha 800 € de reforma; ainda depende de mim. Juntou o seu tradicionalismo arcaico à insensibilidade social. Se o laivo machista do candidato e presidente foi pouco comentado, a insensibilidade social ressaltou logo a vista de João Oliveira do PCP. No programa semanal onde participa, o “Corredor do Poder”, apressou-se rapidamente a apontar a ignorância do presidente sobre o valor das reformas em Portugal. Só é pena que não se lembre disso de cada vez que fala dos portugueses que ganham 1500 € mensais como desfavorecidos. Quando tudo parecia simplesmente mau folclore típico de campanha eleitoral, eis que baixamos ao nível do terceiro mundo: uma data de eleitores inscritos viram-se privados de votar. Não bastava já o atraso que sempre houve entre o recenseamento e o efectivo direito ao voto, agora tinham de vir os problemas com o cartão do cidadão atrapalhar. Curiosamente, pouca gente acha necessário repetir as eleições ou, no mínimo, permitir que essas pessoas votem noutro dia. Como corolário, o candidato vencedor, fez um verdadeiro discurso de união… de união contra os que o criticaram. De facto, há semanas em que mais valia ficar na cama.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Bastonários da (des)ordem

Um dos muitos aspectos que me fazem não apreciar Marinho Pinto é o facto dele ser bastonário de uma ordem profissional. Toda a sua cruzada pela defesa dos que não têm voz – na qual me coloco ao seu lado – me parece suspeita quando ele é a figura máxima de uma organização que se farta de excluir pessoas com habilitação própria para exercer uma profissão do exercício dessa mesma profissão, tornando-lhes assim a voz menos audível. Uso este bastonário apenas como exemplo, por ser dos mais conhecidos, porque, na verdade, não aprecio ordens profissionais em geral. Intriga-me como, volta e meia, lá estão todos os bastonários na auto-intitulada “maior sala de debates do país”, o “Prós e Contras”, como pessoas que têm uma opinião fundamental para a sociedade quando uma das suas funções fundamentais é fechar o seu grupo profissional às opiniões do resto da sociedade. E pergunto-me quem são aquelas organizações para decidirem quem entra ou não entra na profissão em causa. Só vejo equivalente em certas milícias populares que resolvem tomar conta do bairro. E porque são ilegais estas segundas e legais as primeiras? Não sei, nem quero saber; só espero que as ilegalizem depressa visto que, seja qual for a razão, nada de bom tem trazido e de mau já trouxe muito. Chegou-se agora ao ponto de profissões de cariz eminentemente científico e vocacionadas para a investigação estarem organizadas em ordens, como se alguém pudesse ter dito a Galileu: “Amigo, essa lei da queda dos graves é muito boa mas, visto que você não tem um curso de Física, remeta-se à sua insignificância”. E parece que, no governo, alguém acordou. Em 18 de Dezembro de 2010, nas Jornadas Parlamentares do PS, o ministro da Ciência e do Ensino Superior disse claramente que estas organizações apenas pretendem canibalizar e controlar o acesso ao mercado de trabalho, que o Parlamento cede aos seus interesses corporativos e que esta situação gera um condicionamento desse mesmo mercado, sob o pretexto da deontologia. E eu acrescento que estas organizações acabam por desfavorecer um abaixamento dos “honorários” que os seus profissionais cobram. Curiosamente, muitas das ordens nem tutelam verdadeiras profissões liberais, se é que essas existem de facto. Ora, sem deontologia eu vivo bem, só preciso que se cumpra a lei. Os meus direitos defendo-os eu e, quando não conseguir, terá de ser o estado a fazê-lo. Portanto, não vejo necessidade de existirem organizações a tentar adivinhar hoje se no futuro vamos ter falta ou excesso de médicos, havendo até quem consiga dizer as duas coisas com intervalos de dez segundos. Se houver gente a mais com um determinado curso, certamente esses conhecimentos terão aplicação noutro lado – um curso e uma profissão são coisas diferentes, convém é que sejam os clientes a decidir quem os serve melhor e não os profissionais a barrar a entrada a novo sangue. Não vou entrar pelo caminho de procurar perceber se é verdade que há representantes das ordens a entrar pelo gabinete do ministro a pedir-lhe para fechar entradas nas universidades. É irrelevante. O que importa é que, se quiserem, eles próprios podem barrar a entrada na profissão, fazendo assim chantagem com o resto da sociedade. Por isso, estou com o ministro quando ele diz que conseguir libertar o país da tutela das ordens profissionais na entrada das profissões é um elemento fundamental, sobretudo em período de crise económica. Que o que se está a passar é uma canibalização do mercado de trabalho em torno das profissões qualificadas, em que os que estão instalados criam uma fronteira para ninguém mais entrar. Louvado seja o senhor… ministro Mariano Gago. Se ele quiser uma manifestação contra as ordens eu estou lá. Se ele as vai mesmo combater, eu pago para ver. Não é um gasto, é um investimento.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Tiros nos pés para fazer esquecer as dores de dentes

É sabido que a consciência de cada um não é razão suficiente para levar um lado a tomar decisões que tenham em conta a outra parte interessada numa determinada questão. Por isso se decidiu, nas questões laborais, proteger a parte mais frágil com uma série de direitos, incluindo a greve. Porém, hoje em dia, para uma boa fatia das profissões que preenchem a paleta ocupacional da chamada classe média, fazer greve exige tão poucos sacrifícios que o único obstáculo é a consciência de cada um que, como já se viu, não é travão fiável. Só por esta razão é que posso compreender a frequência com que se verificam greves na função pública, particularmente entre os profissionais de saúde e de educação que, convenhamos, estão longe de ser os desfavorecidos do país. Este tipo de protesto banalizou-se tanto que duvido até que ainda alguém lhe dê muita atenção. Se não há médico, sofre-se e pronto. Sofre quem sofre, que se tiver dinheiro para pagar uma consulta privada, aí não vai ter dificuldades com grandes paralisações. Assim, tomando como exemplo esta última classe, com o apoio das forças partidárias que mais reivindicam os louros da defesa dos desfavorecidos, qualquer médico, com o seu salário bem superior à média nacional, teve toda a razão em fazer greve na quarta-feira passada (24/11/2010), deixando sem consulta uma data de pessoas nos centros de saúde e hospitais, gente que ganha bem menos do que esse médico, visto que, se assim não fosse, poderia muito bem recorrer à medicina privada onde, vá-se lá saber porquê, as greves não se fazem sentir tanto. Enquanto a classe média, que tem emprego garantido, anda entretida a evitar os pesos que lhe possam carregar a consciência, a ministra da saúde, que tutela uma parte dessa classe, preocupa-se com… as cesarianas. Creio que este será até o seu assunto predilecto. Volta e meia, lá vem ela dizer que há cesarianas a mais neste país, cesarianas essas que até são pedidas pelas parturientes. Mas a senhora sente-se incomodada, quer que haja indicação clínica para tal, que isto aqui não é uma rebaldaria, é um país onde há boas práticas a seguir. Quem manda no parir das outras é o médico de serviço, por influência divina da Sr.ª Ministra, olarila. Está muito bem, enquanto o Serviço Nacional de Saúde se desfaz, a preocupação da sua responsável máxima não é encontrar soluções para essa situação, nem abrir unidades de cuidados paliativos, nem sequer fazer alguma coisa relativamente aos medicamentos mais recentes que o país não tem dinheiro para pagar. A opção é atacar o drama das mulheres que se acham no direito de escolher uma cesariana! Enfim, é um pouco como a greve geral da semana passada: Tiros nos pés para fazer esquecer as dores de dentes!