quinta-feira, 25 de junho de 2009

Gripe “A”… de alérgica

Se uma das funções implícitas das autoridades públicas é manter a serenidade da população nas situações de grande tensão porque, como é sabido, o pânico também mata; uma das teorias para justificar o aumento de doenças alérgicas nos países desenvolvidos é a de que o sistema imunitário se entretém a atacar agentes inócuos, visto que os perniciosos escasseiam. Ora, uma simples analogia permite chegar a um diagnóstico fiável: as autoridades públicas são alérgicas à gripe “A”! As evidências estão à vista: todos os dias aparece uma alta personalidade ligada à saúde pública a alertar a população, até aí posta em sossego, de que não há razão para pânico, como um bombeiro que, depois de acender uma fogueira na qual ninguém reparou, se dedica agora a gritar que está tudo controlado, controlo esse claro aos olhos de qualquer um, quanto mais não seja pelo facto da fogueira ser alimentada por lenha húmida e ser já pouco mais que braseiro e fumo. O fumo da gripe “A” tem-se revelado pouco tóxico, mas o sistema imunitário mundial tem lidado com ele como se de gás mostarda se tratasse, confundindo ácaros com microrganismos patogénicos, numa espectacular reacção alérgica. O problema das alergias é que, sem ameaça que o justifique, limitam a vida de quem delas padece, de tal modo que os sistemas que existem para nos defender se tornam nos nossos mais dedicados carcereiros. A higienização da sociedade trouxe a multiplicação destas reacções, da gripe à colher de pau vai por aí uma guerra sem quartel. As instituições que constituem o nosso sistema imunitário colectivo habituaram-se a reagir violentamente, e sem pesar custos nem benefícios, contra qualquer antigénio, altamente mortal ou relativamente pacato, e a torrente de histamina posta em circulação limita-se assim a inflamar a delicada mucosa que se chama liberdade.

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