segunda-feira, 29 de junho de 2009

"A oportunidade perdida", versão EUA

Depois da oportunidade perdida protagonizada pelo sr. engenheiro, que conseguiu a proeza de chatear as corporações mantendo tudo basicamente na mesma, parece que a história se repete, agora do outro lado do lago.


Data das eleições II

- Em que planeta é que, podendo fazer algo por menos tempo e dinheiro, se escolhe fazer por mais?
- Num planeta em que os habitantes são tratados como idiotas por quem os governa.

Sempre fomos tratados como idiotas. Esta é só mais uma ocasião em que o fizeram, talvez de forma mais descarada. E o que vamos fazer? Dar-lhes razão votando (e não votando) como sempre.

Temos exactamente aquilo que merecemos.

Pôr o garfo na ferida... e torcer! - "Entrevista a Medina Carreira na SICN" (ou 30 minutos de lucidez)

domingo, 28 de junho de 2009

Data das eleições



Assim de repente, o que se me oferece dizer é:
VÃO GOZAR COM A VOSSA MÃEZINHA!!!

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Gripe “A”… de alérgica

Se uma das funções implícitas das autoridades públicas é manter a serenidade da população nas situações de grande tensão porque, como é sabido, o pânico também mata; uma das teorias para justificar o aumento de doenças alérgicas nos países desenvolvidos é a de que o sistema imunitário se entretém a atacar agentes inócuos, visto que os perniciosos escasseiam. Ora, uma simples analogia permite chegar a um diagnóstico fiável: as autoridades públicas são alérgicas à gripe “A”! As evidências estão à vista: todos os dias aparece uma alta personalidade ligada à saúde pública a alertar a população, até aí posta em sossego, de que não há razão para pânico, como um bombeiro que, depois de acender uma fogueira na qual ninguém reparou, se dedica agora a gritar que está tudo controlado, controlo esse claro aos olhos de qualquer um, quanto mais não seja pelo facto da fogueira ser alimentada por lenha húmida e ser já pouco mais que braseiro e fumo. O fumo da gripe “A” tem-se revelado pouco tóxico, mas o sistema imunitário mundial tem lidado com ele como se de gás mostarda se tratasse, confundindo ácaros com microrganismos patogénicos, numa espectacular reacção alérgica. O problema das alergias é que, sem ameaça que o justifique, limitam a vida de quem delas padece, de tal modo que os sistemas que existem para nos defender se tornam nos nossos mais dedicados carcereiros. A higienização da sociedade trouxe a multiplicação destas reacções, da gripe à colher de pau vai por aí uma guerra sem quartel. As instituições que constituem o nosso sistema imunitário colectivo habituaram-se a reagir violentamente, e sem pesar custos nem benefícios, contra qualquer antigénio, altamente mortal ou relativamente pacato, e a torrente de histamina posta em circulação limita-se assim a inflamar a delicada mucosa que se chama liberdade.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Especial vida pública: o parto da dívida

Quem está habituado a seguir os programas de vida selvagem que adquiriam espaço de emissão pré-almoço em algumas televisões de canal aberto, com um estatuto tão incontornável quanto o dos rituais eclesiásticos supressores de tempo de visionamento de desenhos animados de domingo de manhã, quem está habituado a isso, dizia eu, sabe que o tema do parto na vida animal é sempre tratado com especial cerimónia e vai provocando espanto entre os telespectadores, seja pela abundância de fluidos corporais, que por toda a alegria do milagre da vida sempre me suscitaram sensações pouco dignas dessa expressão, seja pelo facto de nunca termos imaginado como possível que a característica geometria de alguns daqueles animaizinhos fosse compatível com a prática do amor no seu sentido mais carnal, muito menos dar à luz daquela forma…

Quer dizer, já toda a gente assistiu ao parto mais filmado da natureza: o nascimento da uma gazela numa qualquer planície da reserva natural do Masai Mara… Narração com voz profunda e hipnotizante, a mamã gazela a tentar espantar as moscas com espasmos dos músculos das orelhas ao mesmo tempo que perscruta no horizonte a ameaça dos terríveis predadores do episódio da semana anterior, desta feita relegados para papel de vilões deste episódio especial; eis que de súbito uma massa de carne envolvida em película semitransparente coberta de sangue e muco atinge a vegetação rasteira do Masai Mara e que, depois de uma boas lambidelas da progenitora, toma a forma de uma gazela em tamanho pequeno… entra então em cena o entusiasmo da equipa responsável pelo episódio que baptiza e adopta a cria de imediato, reclamando a habilidade para a distinguir das outras 200 gazelas da manada.

Também já se pode dizer que algumas das mais misteriosas concepções da natureza nos entraram sala a dentro enquanto esperávamos o assado de domingo: o nascimento das tartarugas na areia da praia ou até mesmo o nascimento do mítico tubarão branco, neste caso na ausência da mesma voracidade paternal que os animaizinhos peludos de quatro patas geralmente suscitam nas respectivas equipas de acompanhamento.

Mas de todos estes nascimentos, tenho de confessar que nenhum é tão misterioso, desconhecido e, apesar do paradoxo, discutido, como o nascimento da famigerada dívida pública, que estou em condições de vos revelar… é entre os densos tufos das páginas do diário da república, na imensa planície da Imprensa Nacional Casa da Moeda, que este verdadeiro milagre tipográfico tem lugar. Foi no inicio deste mês, enquanto me passeava pelas notificações da série I daquele santuário legal, que tive a sorte de testemunhar este verdadeiro acto de criação. Ainda dizem que é nos desertos e selvas da África e da Ásia que se escondem os prodígios da natureza. Certamente não conhecem o poder das resoluções do conselho de ministros, capaz, numa só postura, de lançar no mundo 20 mil milhões de euros de títulos do tesouro que, se sobreviveram à austeridade dos implacáveis mercados financeiros, trarão mais vida a todo o ecossistema nacional… Estou aqui a brincar com coisas sérias é o que é… como é que é possível brincar com a, segundo reza a resolução do conselho de ministros n.º 46/2009 de 02 de Junho, “emissão de dívida pública fundada sob a forma de bilhetes do Tesouro até ao montante máximo de 20 mil milhões de euros”? Se quisesse brincar com isso teria de dizer algo como “emissão de dívida pública fundada sob a forma de bilhetes do Tesouro até ao montante máximo de 20 mil milhões de euros”. Não posso deixar de me perguntar se os agiotas que vão comprar estes “bilhetes” também são assim tão eloquentes na cláusula do contrato de empréstimo em que estabelecem a penalização prevista para a omissão das prestações devidas. Sei lá, tipo “três incumprimentos seguidos, ou seis intercalados, da liquidação da prestação mensal prevista na alínea anterior faz incorrer o primeiro signatário deste mútuo oneroso (as próximas gerações de portugueses) na aplicação de força mecânica passível de infligir fracturas expostas da tíbia e perónio de ambos os respectivos membros inferiores”? É que eu não estou nada de acordo com isto. Vocês sabem o risco que isto acarreta de se contrair uma osteomielite?

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Pôr o dedo na ferida...

"Tempo de fazer contas"

Peguemos então na máquina de calcular e deitemos contas à democracia que temos. De mais de 9 milhões e meio de eleitores inscritos, 63% (mais de 6 milhões) entenderam, no passado domingo, que não valia a pena votar. Considerando que outros 4,63%, tendo votado, o fizeram em branco, negando a confiança a qualquer partido, e que houve 2% de votos nulos, os portugueses que confiam ainda nos partidos que temos são já menos de um terço (30%).

O que significa que o PSD - partido mais votado - tem a confiança de apenas 9,5% dos portugueses (31,68% de 30%), e o PS de menos ainda: nem de 8% (26,58% de 30%). E todos os restantes partidos, no seu conjunto, de menos de 9%. É esta a legitimidade democrática (o PSD representando 9,5% dos portugueses, o PS menos de 8% e os restantes partidos menos de 9%) do actual sistema partidário. O que levou a tal divórcio dos portugueses - que, no entanto, nas primeiras eleições após o 25 de Abril acorreram em massa, esperançada e entusiasticamente, às urnas - dos políticos e da política? Teremos que mudar de povo? De políticos? Ou devemos continuar a fazer de conta?

(Texto de Manuel António Pina no JN de 2009-06-09)