segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Réquiem eleitoral

Três suaves sons de uma firmeza sequencial subalternizam o burburinho da sala: são as pancadas da batuta do maestro na madeira do seu púlpito… silêncio, vai começar a campanha eleitoral.

Cordas, metais, madeiras, percussão, teclas, todos vieram aperaltados e todos nas mãos dos seus melhores intérpretes. Trocam-se olhares de cumplicidade entre executantes para os duetos que se avizinham. Será a altura para brilharem os representantes de cada secção nos solos que lhes cabem.

Ao centro, o grosso da Sinfónica Nacional, o núcleo do ensemble: a secção de cordas, residência da alma dramática da classe instrumental, os violinos. O ouvido inexperiente não os distingue mas eles dividem-se em dois grupos que se distribuem em palco pelas partes central esquerda e direita da uma semi-circunferência. É aqui que se define o andamento da composição. Na meia esquerda está hoje o objecto de cobiça pelo qual todos se esgadanham: o principal e, por inerência da secção à qual pertence, o chefe da orquestra. Todos o olham com respeito. Dizem que, com este, o maestro é mais conduzido do que conduz. O público não se apercebe mas neste espaço geográfico sinfónico o alinhamento dos intérpretes é irrepreensível. Há muito que o actual chefe se desfez dos elementos com tendência ao improviso. Na verdade foi simples, bastou tê-los convidado a produzir harmonia melódica consequente. Agora, todos seguem a sua partitura sem hesitação.

Na meia-direita reina a confusão fratricida porque todos se batem por protagonismo, aspiram a posição de chefe e não suportam o virtuoso que agora o ocupa. Querem ser eles a marcar o andamento em solos audíveis que o programa musical estabelecido pelo público lhes reserva para um ciclo posterior. Farão tudo para lá chegar mais cedo ainda que, qual alegoria da histórica marítima atlântica, tenham de ir ao fundo com o navio. Se não os põem na linha, o resultado mais parece uma serenata nocturna protagonizada por gatos desvairados em pleno período do êxtase lúbrico.

Nas orlas do extremo sinfónico tomam lugar os adereços do conjunto. Resignadas à sua peculiar natureza instrumental, estas secções raramente são convocadas a contribuir para a melodia. Na extrema-esquerda, para os sons produzidos concorrem duas gerações de intérpretes que nutrem entre si um discreto ódio visceral. Apesar de ambas se dizerem membros da orquestra a verdade é que há muito que se demitiram da consequência da sua função: produzir música. O seu papel é destoar. Na origem do problema estará a política de recrutamento de executantes que desejariam ver alargada ao conjunto sinfónico e que assenta na premissa de que todo o músico é um bom músico, não merece distinção, tem direitos adquiridos ainda que as actuações não arrecadem receitas suficientes para os pagar. Se os deixarem, acabam com esta orquestra e com a seguinte, e outra, e mais outra, com a mesma natural voracidade do monstro das bolachas que, de todas as suas artes de pedagogia infantil, a de ensinar a fazer bolachas para substituir as que comia nunca se lhe conheceu.

Para o fim, a extrema-direita do ensemble. Estes espertalhões camaleónicos vestem-se como os da secção central, falam como eles, andam como eles, até já se sentaram nos lugares deles pelos breves instantes após os quais foram saneados por não estarem à altura das exigências… só não mimetizam o corte de cabelo. Com um pouco de atenção percebe-se que é só vaidade e fanfarronice e que a única coisa em que são bons é a marcar a gravidade sonora do compasso, o rigor e austeridade que conferem disciplina e exercício rítmico aos executantes e à atenção auditiva do público que assiste.

Mas esta é apenas mais uma periódica sessão de ensaio no final da qual o público será convidado a opinar sobre a qualidade das secções. Muitos nem aparecem e a ausência de estímulo deduzida deste abstencionismo em nada tem contribuído para a elevação da qualidade da música produzida nos últimos 35 anos de existência. Pelo meio destas sessões haverá sempre alguns que, ao estilo do sucessor de Béla Lugosi na versão cinematográfica do inicio dos anos 90 realizada por Francis Ford Coppola, comentarão insidiosamente: “what sweet music they make”. Mas os resistentes destas andanças já conhecem o resultado destas sessões de treino... verdadeiros lamirés de um allegro que depressa se tornará num funesto réquiem nacional que durante 4 anos vai aprofundar a descredibilização dos intérpretes e da forma como gastam o (nosso) dinheiro dos bilhetes para comprar instrumentos. Já dizia o artista, “the show must go on”.

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