quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Discriminações cirúrgicas

Não sou grande adepto de discriminações, é uma coisa minha, não gosto. Por isso é que não suporto que se discriminem ciganos. Não gosto de ouvir a mãe assustar a criancinha dizendo que vem aí o cigano, que a vai vender ao cigano e também não gosto que desculpem tradições obscuras com o pretexto de serem parte da identidade cultural desse ou de qualquer outro povo. Tenho para mim que se deve tratar por igual o que é igual e diferentemente o que é diferente. Como os ciganos são pessoas como as outras, creio que devem ser tratados como qualquer um de nós. Vem isto a propósito das acções de Sarkozy e da onda de compreensão da cultura cigana que se seguiu. Confesso que, a mim, interessam-me sempre os indivíduos e não as culturas, para a conservação destas últimas já há museus. As culturas não podem apresentar-se como algo que “é assim”, convém que não fujam à avaliação e não tenham medo da discussão. Caso contrário, serão apenas formas de manter o poder instituído dentro delas, de tornar indiscutíveis actos que, como tudo na vida, devem ser questionados. Por isso, muito me espanta que as pessoas mais preocupadas com a liberdade cultural não se preocupem com o que se passa no seio das diversas culturas, que as aceitem passivamente porque, por muito que reflicta, chego sempre à conclusão de que liberdade só há uma: a individual. Todas as outras são opressão disfarçada. Por isso é que num país democrático a regra deve ser uma lei que garanta a liberdade dos seus cidadãos e nenhuma cultura deve sobrepor-se a ela, para que não se torne numa ameaça à liberdade, particularmente das pessoas dessas comunidades. Por isso é que acho que os ciganos não devem ser discriminados, logo, as suas práticas culturais não podem infringir as leis, ou obrigar a excepções na dita lei. É que eu não penso que os ciganos sejam todos ladrões, não é por aí que os seus possíveis crimes me assustam. O que me preocupa é que algumas das suas práticas culturais, só por si, possam ser já um crime. Na verdade, de cada vez que alguém faz uma operação de charme da cultura cigana, sobressaem uma série de características atentatórias dos mais elementares direitos humanos para os próprios membros da comunidade. Basta, para isso, recordar a reportagem do “Jornal da Noite” da SIC de 21/09/2010 e o debate que a enquadrou. Se a investigadora da Universidade do Minho que lá estava me ouvisse defender que um elemento, naturalmente um homem, deveria falar em nome de cada família ou comunidade, talvez não fosse tão compreensiva comigo. Mas, lá está, a forma de muita gente não discriminar é diferente da minha. Naquele debate, todos ouviram falar passivamente de tradições como casamentos de adolescentes combinados entre famílias e rituais de "desfloramento de virgens" com o ar mais cândido do mundo. Talvez por também não quererem que alguém viesse questionar as suas próprias tradições, se é que umas e outras não têm traços comuns. Mas eu continuo a pensar que as tradições e culturas devem ser questionadas. Por isso questiono a cigana tal como questiono a minha porque, como não me canso de repetir, não gosto de discriminações.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

O conto dos investidores

"Juros da dívida portuguesa a 10 anos sobem cinco pontos base" (http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=443629)

Bizarro comportamento este dos “investidores”... A dívida soberana portuguesa admite-se como "quase-tóxica" pelas veneráveis agências de notação financeira com nome de lordes britânicos e tom de igual presunção aglutinadora de chá e biscoitos. Todavia, estes mamíferos compram dívida como loucos, exigindo o pagamento de juros acrescidos como contrapartida... Aumenta a procura, o preço desce: preceito dos fundamentais do mercado que aparentemente não se aplica aqui, ou na comercialização do petróleo, ou na comercialização de imóveis, ou na comercialização de automóveis, ou na comercialização de rabanetes, bom não se aplica em coisa quase nenhuma.
Vou contar uma história: era uma vez um conjunto de "investidores" do reino da Terra do Nunca que andaram a alimentar um monopólio durante anos e anos com produtos imobiliários. Quando um deles reparou que estavam perigosamente perto dos valores das notas do jogo de sociedade da Parker Brothers, disseram todos: “Vamos ficar pobres!!! Temos de vender fundos de investimento imobiliário e comprar «commodities»!!!”. Viraram-se então para o arroz, a soja, o café, o trigo, o algodão, o feijão e, especula-se, o bem sucedido mercado das sandes de couratos. Nessa altura, deixou de se falar em crise imobiliária para se falar em crise do mercado das "commodities" e eis que a expressão "crise alimentar" começa a espreitar a informação publicamente veiculada. Mas este triste conto haveria de ter ainda mais um episódio: eis que entram em cena os Estados gordos e pesados, acompanhados por uma horda de organizações mundiais com manias filantrópicas. Armados de legisladores, cartas de direitos e sustentados em conceitos civilizacionais (pfff, palhaços...) haveriam de exercer algum controlo sobre a besta do mercado que ameaçava tornar insuportável beber um café e comer um papo seco com manteiga ao pequeno almoço. "O que fazemos agora?", perguntaram os racionais investidores, estes sofisticados seres humanos dotados de uma extraordinária capacidade premonitória e de uma invulgar indisposição para o pânico. "Vamos ficar pobres!!! Temos de vender «commodities» e comprar dívida pública!!!", concluíram de forma óbvia e inesperada. E aqui estamos nós, chegados ao capítulo actual... Entretanto, não faltam campos por cultivar, gente para trabalhar, colheitas a crescer, as vacas que continuam a produzir o mesmo leite, a mesma carne… É verdade que continuamos a ter a necessidade de gastar apenas o que produzimos, mas que diabo, já estaremos nós a produzir o que podemos? E quanto ao que produzimos, estaremos nós a ser justos na distribuição?

Na escola, quando era curioso e ou o professor não sabia do que estava a falar, ouvia muitas vezes: mais tarde vais perceber isto, para já é demasiado complexo para ti. Continuo, impacientemente, à espera de perceber algumas coisas que me rodeiam e, acredito, não serei o único. Mas há uma coisa que já consegui perceber: os tais “investidores” de quem se fala? Somos nós…