quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O canteiro autárquico

De quatro em quatro anos, o Sr. Manuel da mercearia, primeira figura da freguesia, munido de estratégica visão, sai à rua a pedir votos. Deram-lhe um canteiro para gerir e o homem já não quer saber do jardim. Do seu canteiro é que ninguém pode dizer mal, é o melhor de todo o horto. Quem o olha mais de cima não percebe o enquadramento nem vê jardim algum. São só flores amontoadas sem os famosos rei e roque, recursos desperdiçados sem grande linha de acção. Assim são as nossas autarquias que, apesar do trabalho que fazem, têm um problema essencial: um problema de dimensão. Lembremo-nos só que se cada freguesia, tal como as conhecemos hoje, quiser crescer em população, jamais teremos florestas no país, pois de quilómetro em quilómetro encontraremos sempre uma nova urbe. Convenhamos: é freguesia a mais. Se as freguesias são muitas, os concelhos nem se fala. São excessivos no número e, consequentemente, os seus órgãos gestores têm demasiadas competências para territórios tão exíguos. Tudo porque alguém se lembrou de atribuir “Carta de Foral” não para promover a organização mas para premiar o crescimento que, como se viu há dias com a visita daquele senhor turco, pode ser apenas fruto de um tumor. Ora, com tanta gente a querer crescer, não tardará que ande aí tudo às cotoveladas, sem espaço para respirar, mas com o fito do prémiozinho, de ver a terrinha tornar-se cidade ou sede de concelho. E poderão então os galos andar às bicadas, ou mesmo aos tiros, para apurar quem vai afinal mandar na nova capoeira, quem vai tentar sugar mais flores ao resto do jardim para as atafulhar no seu canteiro. Parece, pois, que está na hora de plantar um jardim novo, com menos canteiros e mais bem pensados, a ver se se gasta menos e com resultados bem melhores.

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