sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Bastonários da (des)ordem

Um dos muitos aspectos que me fazem não apreciar Marinho Pinto é o facto dele ser bastonário de uma ordem profissional. Toda a sua cruzada pela defesa dos que não têm voz – na qual me coloco ao seu lado – me parece suspeita quando ele é a figura máxima de uma organização que se farta de excluir pessoas com habilitação própria para exercer uma profissão do exercício dessa mesma profissão, tornando-lhes assim a voz menos audível. Uso este bastonário apenas como exemplo, por ser dos mais conhecidos, porque, na verdade, não aprecio ordens profissionais em geral. Intriga-me como, volta e meia, lá estão todos os bastonários na auto-intitulada “maior sala de debates do país”, o “Prós e Contras”, como pessoas que têm uma opinião fundamental para a sociedade quando uma das suas funções fundamentais é fechar o seu grupo profissional às opiniões do resto da sociedade. E pergunto-me quem são aquelas organizações para decidirem quem entra ou não entra na profissão em causa. Só vejo equivalente em certas milícias populares que resolvem tomar conta do bairro. E porque são ilegais estas segundas e legais as primeiras? Não sei, nem quero saber; só espero que as ilegalizem depressa visto que, seja qual for a razão, nada de bom tem trazido e de mau já trouxe muito. Chegou-se agora ao ponto de profissões de cariz eminentemente científico e vocacionadas para a investigação estarem organizadas em ordens, como se alguém pudesse ter dito a Galileu: “Amigo, essa lei da queda dos graves é muito boa mas, visto que você não tem um curso de Física, remeta-se à sua insignificância”. E parece que, no governo, alguém acordou. Em 18 de Dezembro de 2010, nas Jornadas Parlamentares do PS, o ministro da Ciência e do Ensino Superior disse claramente que estas organizações apenas pretendem canibalizar e controlar o acesso ao mercado de trabalho, que o Parlamento cede aos seus interesses corporativos e que esta situação gera um condicionamento desse mesmo mercado, sob o pretexto da deontologia. E eu acrescento que estas organizações acabam por desfavorecer um abaixamento dos “honorários” que os seus profissionais cobram. Curiosamente, muitas das ordens nem tutelam verdadeiras profissões liberais, se é que essas existem de facto. Ora, sem deontologia eu vivo bem, só preciso que se cumpra a lei. Os meus direitos defendo-os eu e, quando não conseguir, terá de ser o estado a fazê-lo. Portanto, não vejo necessidade de existirem organizações a tentar adivinhar hoje se no futuro vamos ter falta ou excesso de médicos, havendo até quem consiga dizer as duas coisas com intervalos de dez segundos. Se houver gente a mais com um determinado curso, certamente esses conhecimentos terão aplicação noutro lado – um curso e uma profissão são coisas diferentes, convém é que sejam os clientes a decidir quem os serve melhor e não os profissionais a barrar a entrada a novo sangue. Não vou entrar pelo caminho de procurar perceber se é verdade que há representantes das ordens a entrar pelo gabinete do ministro a pedir-lhe para fechar entradas nas universidades. É irrelevante. O que importa é que, se quiserem, eles próprios podem barrar a entrada na profissão, fazendo assim chantagem com o resto da sociedade. Por isso, estou com o ministro quando ele diz que conseguir libertar o país da tutela das ordens profissionais na entrada das profissões é um elemento fundamental, sobretudo em período de crise económica. Que o que se está a passar é uma canibalização do mercado de trabalho em torno das profissões qualificadas, em que os que estão instalados criam uma fronteira para ninguém mais entrar. Louvado seja o senhor… ministro Mariano Gago. Se ele quiser uma manifestação contra as ordens eu estou lá. Se ele as vai mesmo combater, eu pago para ver. Não é um gasto, é um investimento.

Sem comentários: