"Juros da dívida portuguesa a 10 anos sobem cinco pontos base" (http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=443629)
Bizarro comportamento este dos “investidores”... A dívida soberana portuguesa admite-se como "quase-tóxica" pelas veneráveis agências de notação financeira com nome de lordes britânicos e tom de igual presunção aglutinadora de chá e biscoitos. Todavia, estes mamíferos compram dívida como loucos, exigindo o pagamento de juros acrescidos como contrapartida... Aumenta a procura, o preço desce: preceito dos fundamentais do mercado que aparentemente não se aplica aqui, ou na comercialização do petróleo, ou na comercialização de imóveis, ou na comercialização de automóveis, ou na comercialização de rabanetes, bom não se aplica em coisa quase nenhuma.
Vou contar uma história: era uma vez um conjunto de "investidores" do reino da Terra do Nunca que andaram a alimentar um monopólio durante anos e anos com produtos imobiliários. Quando um deles reparou que estavam perigosamente perto dos valores das notas do jogo de sociedade da Parker Brothers, disseram todos: “Vamos ficar pobres!!! Temos de vender fundos de investimento imobiliário e comprar «commodities»!!!”. Viraram-se então para o arroz, a soja, o café, o trigo, o algodão, o feijão e, especula-se, o bem sucedido mercado das sandes de couratos. Nessa altura, deixou de se falar em crise imobiliária para se falar em crise do mercado das "commodities" e eis que a expressão "crise alimentar" começa a espreitar a informação publicamente veiculada. Mas este triste conto haveria de ter ainda mais um episódio: eis que entram em cena os Estados gordos e pesados, acompanhados por uma horda de organizações mundiais com manias filantrópicas. Armados de legisladores, cartas de direitos e sustentados em conceitos civilizacionais (pfff, palhaços...) haveriam de exercer algum controlo sobre a besta do mercado que ameaçava tornar insuportável beber um café e comer um papo seco com manteiga ao pequeno almoço. "O que fazemos agora?", perguntaram os racionais investidores, estes sofisticados seres humanos dotados de uma extraordinária capacidade premonitória e de uma invulgar indisposição para o pânico. "Vamos ficar pobres!!! Temos de vender «commodities» e comprar dívida pública!!!", concluíram de forma óbvia e inesperada. E aqui estamos nós, chegados ao capítulo actual... Entretanto, não faltam campos por cultivar, gente para trabalhar, colheitas a crescer, as vacas que continuam a produzir o mesmo leite, a mesma carne… É verdade que continuamos a ter a necessidade de gastar apenas o que produzimos, mas que diabo, já estaremos nós a produzir o que podemos? E quanto ao que produzimos, estaremos nós a ser justos na distribuição?
Na escola, quando era curioso e ou o professor não sabia do que estava a falar, ouvia muitas vezes: mais tarde vais perceber isto, para já é demasiado complexo para ti. Continuo, impacientemente, à espera de perceber algumas coisas que me rodeiam e, acredito, não serei o único. Mas há uma coisa que já consegui perceber: os tais “investidores” de quem se fala? Somos nós…
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