Há semanas em que mais valia ficar na cama. As últimas foram um bom exemplo disso, dificilmente as eleições presidenciais poderiam ter sido um maior calvário de descalabros sequenciais ate ao descalabro final. Primeiro, as televisões anteciparam-se aos acontecimentos e, vai daí, toca a fazer debates antes dos candidatos estarem completamente definidos. Consequência: esqueceram-se de José Manuel Coelho. E quando Judite de Sousa se lembrou de o convidar para a sua “Grande Entrevista”, se alguém pensava que estava a tentar emendar a mão, viu-se defraudado. Afinal, só o tinha lá levado para lhe dizer que ele era um menino mal comportado e sem vergonha na cara. Reconhecer que o tinham discriminado? Isso e que era bom. Não lhe dizia respeito, ela não manda na RTP. Só dá a cara pela empresa, mas não recebe reclamações. Sempre que derem elogios à instituição ela veste a camisola, quando a história for menos favorável, despe-a com uma velocidade impressionante. Mas se Coelho não foi aos debates, pouco terá perdido a sua campanha: quase ninguém os viu. E eu, que sempre que pude os vi, só posso dizer que foram muito fraquinhos, verdadeiramente desinteressantes. O que é sempre interessante é ver Cavaco Silva em campanha. Volta e meia lá mostra o lugar que a sua mulher ocupa na hierarquia das coisas. Desta vez, em resposta a uma outra mulher que lamentava o valor da sua reforma, ele atirou-lhe com algo como: Olhe, a minha mulher, que foi professora, ganha 800 € de reforma; ainda depende de mim. Juntou o seu tradicionalismo arcaico à insensibilidade social. Se o laivo machista do candidato e presidente foi pouco comentado, a insensibilidade social ressaltou logo a vista de João Oliveira do PCP. No programa semanal onde participa, o “Corredor do Poder”, apressou-se rapidamente a apontar a ignorância do presidente sobre o valor das reformas em Portugal. Só é pena que não se lembre disso de cada vez que fala dos portugueses que ganham 1500 € mensais como desfavorecidos. Quando tudo parecia simplesmente mau folclore típico de campanha eleitoral, eis que baixamos ao nível do terceiro mundo: uma data de eleitores inscritos viram-se privados de votar. Não bastava já o atraso que sempre houve entre o recenseamento e o efectivo direito ao voto, agora tinham de vir os problemas com o cartão do cidadão atrapalhar. Curiosamente, pouca gente acha necessário repetir as eleições ou, no mínimo, permitir que essas pessoas votem noutro dia. Como corolário, o candidato vencedor, fez um verdadeiro discurso de união… de união contra os que o criticaram. De facto, há semanas em que mais valia ficar na cama.
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
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