A julgar pela evolução recente da infografia
publicada no caderno económico do Expresso, o “Índice Gaspar”, os esforços
nacionais para regressar aos mercados da dívida através da conquista da
confiança dos investidores correm sérios riscos de soçobrar. Pelo menos o
boneco do gato tem um sorriso invertido, o que normalmente é sinal de que o felídeo
não vai bem. Paul Krugman, famoso esquerdista honoris causa… perdão, economista laureado, usa a imagem da “fada
da confiança” para ilustrar o que considera tratar-se de um esforço errado de
austeridade expansionista pró-cíclica, que reforça a recessão económica, e para
a qual não vê saída, na Europa, nos EUA ou nas galáxias distantes onde esta contenda
de escolas de pensamento económico, friedmanitas
versus cheguevaristas, ameaça lançar uma sombra sobre a força do milagre da
multiplicação dos direitos adquiridos nas repúblicas emissoras de dívida
soberana.
Pois eu julgo ter chegado
a hora de adoptar uma nova estratégia e combater o jugo da imperatriz Merkel e
o seu delfim Vítor Darth Gaspar Vader. A proposta consiste em aprender alguma
coisa com o exemplo pioneiro dos iranianos e dos norte-coreanos: vamos usar parte
do dinheiro da troika para promover
um programa nuclear! É isso mesmo, vamos colocar Portugal no mapa das potências
nucleares, sob o auspício de simbologia de risco apropriada, desta feita aquele
símbolo de perigo de radiação. Afinal de contas, já nos cravaram com o rótulo
de lixo financeiro, não antevejo daí desvantagem estética.
Claro que, para já e
retomando uma proposta em tempos apresentada por Patrick
Monteiro de Barros (e ostracizada pelas virgens ecologetas da diocese palaciana de Lisboa), vamos dizer que o programa se destina à produção de energia
eléctrica e, insidiosamente acompanhados de riso maléfico, começamos a
enriquecer o urânio das minas de Canas de Senhorim no interior de fornos de
fogões da marca Meireles, com o propósito da produção da primeira arma nuclear
lusa, sempre com mão-de-obra e produção nacionais. Se um banco (BPN) coube numa
mala de mão, não vejo motivos para uma arma termonuclear não caber num Meireles
de 44 litros com 4 queimadores a gás. A arma terá o perfil militar perfeito, e
ainda um certo panache: mobilidade,
camuflagem doméstica, versatilidade bilha/rede, e vem com tabuleiro de recolha
de molhos.
Vejo facilidades e
dificuldades. Vamos às primeiras: aprimorar a tecnologia poderá beneficiar do
recurso ao saber fazer das múmias leninistas que sabem tudo sobre flectir rudemente
os músculos à comunidade internacional e estão ansiosas por restaurar a
liberdade e a prosperidade de uma economia integralmente planeada. A guarda
revolucionária constitui-se com facilidade, basta recrutar entre piquetes de
greve ferroviária e paralisação de camionistas. O grande líder está escolhido –
Arménio Carlos – e a sua consagração
será assinalada por uma salva de cocktails
Molotov na escadaria do palácio de S.
Bento.
Quanto a dificuldades,
bom, temo que esta nobre empresa nuclear venha a custar alguns milhares de milhões
de euros, pelo que será provavelmente necessário adoptar alguma austeridade
para a financiar. Precisaremos pois de um ministro das finanças credível,
inflexível nesse propósito, um homem com perfil técnico irrepreensível, que
saiba fazer contas em Excel, um
governo Seguro do seu rumo e que
governe pela rua e não para a rua, um governo que não tema manifestações, um
governo… diferente, mais user friendly.
Portanto, ao invés de
promover a confiança, vamos promover o cagaço na europa. Vamos dar corpo à
ameaça de estourar literalmente com a zona euro e no seu lugar deixar um grande
cogumelo atómico. Pode ser que assim regresse o investimento, não por
confiança, mas por miúfa. Um e outro ocupam o mesmo plano de afirmação
meritória da nossa capacidade enquanto país. Mas a miúfa é sempre mais fácil de
promover e não cansa tanto. Veja-se a escola: os fanfarrões e galifões ficam
com as gajas todas, e não é porque se revelam escrupulosos cumpridores dos
planos da troika escolar, bem pelo
contrário.
Afinal de contas, somos um
país orgulhoso das suas tradições de irreverência cívica! Em 900 anos de
história, mais de 100 foram passados a resistir pacificamente, com beatífica
contemplação e complacência, ao domínio de estrangeiros e ditadores (não, não
estou a incluir as 3 intervenções do FMI dos últimos 38 anos de democracia).
Para além do mais, no
final deste esforço, teríamos sempre a possibilidade de aumentar o interesse
das cerimónias da tomada de posse de órgãos de soberania com o trespasse da
pasta contendo os códigos do arsenal nuclear e os contratos de aquisição do
Arpão e do Tridente (os submarinos, acordem!), a propósito dos quais poderíamos
mais tarde ler detalhadamente na edição do Sol, do Público ou do Expresso.
Resta apenas uma reflexão
final: quem é que fica com os fósforos para acender o Meireles?

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