Escreveu Blaise Pascal que “antecipamos o futuro como lento demais para chegar, como para apressar o seu curso (...) Quase não pensamos no presente, e se nele pensamos é somente para nele buscar a luz para dispormos do futuro. O presente nunca é o nosso fim. O passado e o presente são os nossos meios, só o futuro é o nosso fim.” (“Pensées”, Blaise Pascal, 1670). Permito-me discordar deste “tudólogo” do século XVII e dos fragmentos do seu pensamento, que habilidosamente surripiei para aqui. Antes de mais nada porque a universalidade de conhecimento deste matemático, filósofo, moralista e teólogo, só pode ser justificada à luz de uma grande superficialidade em qualquer um dos domínios. Afinal de contas, quem é que hoje não tem, pelo menos, duas licenciaturas em cada uma destas áreas? Ademais porque os tempos que correm me apresentam provas avassaladoras de que antecipamos o futuro e dele dispomos precisamente para engalanar com alarve o presente em que vivemos. Vejamos então:
[1] Malthus viu gorado o seu vaticínio sobre a dificuldade em alimentar o planeta porque a vontade de viver o presente é tanta que convocamos para a grande máquina económica milhões de anos de energia do sol armazenada nos combustíveis fósseis, que queimamos àvidamente, a um ritmo várias vezes superior ao dos ciclos naturais de regeneração energética e assimilação das consequências, e a um ponto em que o vício neles contido é agora um impecilho para vislumbrar um futuro mais auspicioso.
[2] O abandono do preconceito medieval com a usura dotou o português médio da possibilidade de antecipar os rendimentos dos netos dos seus netos, com o objectivo de satisfazer a urgência das debilidades familiares actuais com dois automóveis do tamanho de veículos blindados anfíbios, uma casa inspirada no modelo “LEGO” e roupa de marca registada no conceito vaqueiro-do-texas/vagabundo-de-vão-de-escada-com-calças-a-cair-pelu-cu-abaixo.
[3] O Estado espremeu aos seus credores com voracidade a antecipação dos rendimentos de várias gerações de portugueses, cumprindo com louvável afinco o dito “não deixes para daqui a 30 anos tudo aquilo que podes gastar já”.
[4] O sistema financeiro empossou-se de faculdades bíblicas e olhai, eis que se multiplicaram os produtos financeiros, entre os quais os contratos de futuros recolhem a minha simpática admiração, num exercício especulativo geral “no qual (dizia Keynes) devotamos a nossa inteligência a antecipar o que a opinião geral espera que seja a opinião geral”.
[5] As festas estudantis, queimas, enterros, viagens de finalistas e outros instrumentos de especulação académica com igual exuberância (e custo) protocolar, nos quais se exercita a antecipação de uma avaliação cujos resultados se desconhecem e que, muitas vezes em virtude de derrapagens na empreitada do festejo, resulta na necessidade de o empreender novamente, com acréscimo de experiência (e de matrículas) para o protagonista.
[6] O baptismo, associação clubística e outros ritos de iniciação para infantes, nascituros e zigotos, onde a inscrição prematura numa agremiação antecipa para a celebração familiar “quasi”-divorciada a vontade futura do pequeno careca com fome de leite e diarreico gugudádá, que nem é tido nem achado.
[7] Os pagamentos por conta (PC), pagamentos especiais por conta (PEC) e outros excitantes instrumentos de intervenção fiscal concebidos por governos de patifes neo-liberais, através dos quais se antecipam impostos baseados nas receitas empresariais de anos porvir, numa fascinante e intrigante eltrocussão (choque, no folheto para eleitor ler) fiscal.
[8] (O último e o meu favorito) A figura da prisão preventiva, uma fabulosa arma de combate ao crime que, se empregue de maneira a que o tio Augusto não telefone da secretaria do tribunal a informar o prevaricador de que se deve enfiar num avião com destino a Copacabana, antecipa a pena do presumível inocente, que, pelo sim pelo não, “dá à casa” e na eventualidade de ter havido lapso, reverte o saldo em favor do cartão, pontos que dão descontos na cadeia do sistema prisional português.
Portanto, se Pascal pensasse agora, provavelmente fá-lo-ia bem ocupado com constrangimentos muito presentes, eventualmente no gozo do conforto dos calabouços da prisão preventiva, em virtude da investigação a um crédito mal cheiroso, contraído para financiar o buraco financeiro resultante da exposição a “activos tóxicos” consubstanciados em bilhetes do tesouro português, por sua vez emitidos para financiar a prisão e o tribunal que o condenou, juntamente com a supervisão que não o detectou e a devolução do IRS que apurou com a dedução dos juros do crédito à habitação malparado; num ciclo que se renova, nada cria, nada transforma, apenas antecipa-oblitera felicidade futura.
2 comentários:
Concordo...dispor do futuro não...mas dispor do presente à custa do futuro...e à custa dos mais fracos..
Ainda se ao menos se ficassem por antecipar qualquer coisa de útil para a sociedade, tipo um boletim meteorológico fiável para 10 dias :)
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