Portugal está em guerra. Não se iludam, Portugal está em guerra e a comprová-lo estão as enormes colunas de espesso miasma negro acinzentado que se elevam na troposfera, sobre solo português. Por imagens assustadoramente semelhantes a estas vi já uma nação jurar perseguição sem tréguas, numa guerra sem quartel, aos terríveis perpetradores.
Portugal está em guerra. E como em qualquer nação em estado de guerra, os seus representantes públicos adoptam o comportamento adequado: tamborilam os dedos no tampo de uma mesa e assobiam para o ar enquanto acompanham a contagem decrescente para o final do Verão e da época de incêndios. É verdade, tão habitual se tornou este voraz consumidor de florestas, casas e carros de bombeiros que convivemos com ele anualmente numa época especificamente consignada para o efeito, tal e qual como a época balnear.
Portugal está em guerra. E o que se faz num estado de guerra como o que vivemos? A resposta é óbvia: compramos submarinos e “Pandurs” (veículos blindados de transporte de tropas – fui considerado “inapto”, não ignorante), alugamos helicópteros de combate a incêndios, praticamos o chamamento do pássaro “canadair” espanhol, assentamos a tarefa de apagar os incêndios na boa vontade de voluntários, fornecemos aos mesmos voluntários chibatas para açoitar as labaredas em desvairadas tentativas de dominação e submissão, e “notificamos” burocrática e simpaticamente os proprietários negligentes da necessidade de limparem as suas matas de forma a diminuir o perigo para as suas habitações e para as dos seus vizinhos.
Portugal está em guerra! Isto não é tentativa de eloquência ou estilização hiperbólica. É uma guerra com baixas, e começa pelas mais terríveis, com a perda de vidas dos soldados que estoicamente enfrentam a fornalha diabólica, dos cidadãos que não se desviam a tempo do seu caminho, das casas que não se conseguem mover, dos palermas dos esquilos, raposas, porcos-espinhos e outros com nomes mais distintos, cobardes alados incluídos, que não se organizam para combater o fogo; e das patéticas árvores que se imolam na esperança de um dia nos assombrarem com a merda da conversa: “Buuuuh! Bem vos avisamos! Que riqueza vos resta agora que desaparecemos? Hum?”.
Portugal está em guerra. Mas nem uma palavra nos noticiários sobre propostas compatíveis com a obliteração do inimigo, está tudo demasiado ocupado a ensaiar uma pose de santola acabadinha de sofrer um acidente vascular cerebral, para ver se o momento “kodak” aparece no telejornal da SIC. Porquê? Não vale a pena, é assim todos os anos, tão incontornável como o IRS ou um programa apresentado pelo Malato na RTP1… São os vidros de garrafas, as beatas de cigarros, essa paradoxal simbiose entre madeireiros e fabricantes de mobiliário queimado, as condições climatéricas, o mato seco que entra em combustão espontânea… É muita coisa… Daí que se compreenda que poupar os nossos idosos às horas de maior calor seja mais do que avisado, atendendo a que a ressequida senescência que os caracteriza também a eles os pode colocar em estado de combustão espontânea.
Portugal está em guerra. E entretanto lá se vai assumindo, timidamente, que no cocktail de negligência e piromania se filia a esmagadora maioria dos fogos florestais, na categoria das “causas humanas”. Pirómanos, raio de fetiche este… apanham-se de férias e lá vão eles todos arteiros para o seu passatempo favorito, atear um fogo na mancha florestal mais próxima… Como será que um pirómano se vê a si mesmo nos “gostos e interesses” do “facebook”? “Portugal a arder”?! E citações favoritas? Nero, de harpa na mão, como fabulosamente interpretado em 1951 por Peter Ustinov em “Quo Vadis”: “Wo ho, ó chamas bruxuleantes”?!
Portugal está em guerra! Está em guerra consigo mesmo, está em guerra com uma percepção. A percepção de que esta realidade é irremediável, que não importa encontrar um equivalente penal, ainda que mantendo a mesma matriz napoleónica, para “fechar os pirómanos e deitar fora as chaves”, que não importa reestruturar as forças armadas e profissionalizá-las num referencial de utilidade do domínio busca/salvamento/resposta a catástrofes naturais, que não importa patrulhar florestas com câmaras e homens, que não importa desfazer conflitos de interesses metastizados na contratação externa de meios e serviços privados de combate a incêndios, que não importa tomar posse administrativa de terrenos cuja ignição representa perigo para a vida e posses materiais de terceiros e cuja limpeza de segurança é sistematicamente ignorada pelos seus proprietários…
Portugal está em guerra e a primeira batalha desta guerra é pessoal, trava-se em frente a um espelho. Só depois deixará de se travar nos arbustos anónimos, nos matos protegidos, no quintal de uma das nossas casas, nas costas de alguém que nos é próximo…
1 comentário:
Apesar de este artigo não ter sido resposta ao meu desafio, foi uma coincidência feliz. Coloca todos os dedos em todas as feridas. E o autor é um bom autor. Gostei de o ler. O artigo e o autor.
Manuela, Leiria
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